• Maria Silvana Alves

UMA HISTÓRIA DE SUPERAÇÃO E CONQUISTAS


Um depoimento marcante, forte e, como se havia de se esperar, um exemplo de vida. Andrea Regina, professora e psicopedagoga do Estado do Pará, conta como foi sua trajetória acadêmica permeada por dificuldades, porém sempre com o foco em seus objetivos. Nos "conhecemos" em 2019 através de um grupo de whatsApp sobre dificuldades e transtornos de aprendizagem, do qual ela é administradora. Experiências, histórias de vida, dicas, reflexões, enfim, muito aprendizado temos com essa turma que busca a cada dia mais, aprimorar os atendimentos com nossos pequenos.


Observação: O texto abaixo, escrito pela própria Andrea Regina, não foi editado antes de ser publicado, a fim de que as "marcas" da disortografia e da dislexia ficassem evidentes.


Andrea Regina graduada em Educação Especial pela Universidade do Estado do Para.

Largou sua cidade para tentar concurso público no Amapá e da melhores condições de vida aos seus pais. Sou funcionária pública municipal há 21 anos e trabalhei 10 anos na Educação Especial, trabalhando na formação de Professor e Avaliação Diagnostica. Trabalhei como Pedagoga do PROFUNCIONARIO e atualmente desde 2019 estou realizando um sonho que sempre foi trabalhar com crianças pequenas de 4 e 5 anos, sou coordenadora da EMEI MEU PE DE LARANJA LIMA.

Em 1999 fui chamada no concurso do Estado do Amapá para Professora do Atendimento Educacional Especializado -AEE, onde trabalho há 11 anos na Escola Estadual Augusto dos Anjos. Atuo quando tenho tempo como Psicopedagoga, mas com trabalhos voluntários ou na própria escola quando me pedem auxilio.

Percebia que era diferente, estabanada, perdia objetos, identidades, cartão de créditos, bolsas e esquecia com muita facilidade, e o pior de tudo era escutar dos professores tanto no ensino médio como no cursinho: “ quem ler muito escreve bem” Eu me perguntava porque eu não escrevo bem que leio muito amo os livros, a leitura sempre foi meu hobbe, ou seja, refúgio.

Mas quero fazer um parêntese e agradecer porque eu só soube que tinha algo em 2007 quando fiz a pós em Psicopedagogia com 34 anos, por uma lado, porque vejo que muitos diagnósticos acabam limitando a pessoa, foi um alivio sim saber, porque me cobrava muito porque lia muito e não escrevia bem, era cobrada quando fazia oficio e diziam “ isto esta ruim” ai eu realmente concordava e ficava triste, pois não escrevia de forma convencional, não era porque eu queria e sim que tentava mais não conseguia. Assim mediante o laudo de Dislexia em 2009. Cheguei no meu serviço, daqui pra frente eu escrevo, e alguém concerta os erros porque eu tenho ideias, mas as dificuldades de emprego formal da gramatica são grandes, principalmente colocando as frases de forma ao contrário.

Eu digo que cérebro o disléxico e como o espelho ver tudo de forma invertida, durante minha infância fazia tudo ao contrário, cortava laranja ao contrario e meus pais me reprendiam, eu sempre tive um jeito de pegar nas coisas e no lápis diferentes da maioria.

Esse texto não vai seguir muito a ordem cronológica ele vai seguir meu coração, mas farei o possível para ser clara, quase impossível para quem tem desortografia (dificuldade na produção escrita), mais me esforçarei.

Bem voltando a infância eu era uma menina que sempre amou escrever e ficar com os cadernos, estudar sempre foi minha atividade preferida, já que não me dava bem nenhum esporte, com exceção de corrida e queimada. Fui alfabetizada por uma professora de reforço aos 5 anos e meio, não tive nenhuma dificuldade a alfabetização a leitura sempre foi meu forte( o que me salvou, porque imagine eu leio bem amo ler tenho foco e mesmo assim tenho dificuldade na produção escrita, imagine que tem a dificuldade na leitura? Terá bem mais dificuldade.

Mais vocês sabe a vantagem da dislexia e talvez o que atrapalhe muito a efetivação de politicas públicas nessa área, que o disléxico quando consegue repetir, repetir, varias vezes, quando segue modelos, dicas, orientações, ajuda. Passei com 17 anos na Universidade Estadual do Pará de 2ª chamada, o que fez eu entrar foi a redação “ A felicidade esta nas pequeninas coisas”, mas também só passei porque 30 desistiram do curso e optaram pela UFPA.

Na época que optei pelo curso de Pedagogia em Educação especial porque colei de uma colega de cursinho e falei para minha amiga eu vou fazer esse curso o que será que é? Não sei mas vamos descobri, então a moça não foi chamada e eu minha amiga fomos ( Digo que isso foi o destino me trazer para a educação especial).

Assim esqueci no ensino fundamental e médio tinha muita dificuldades com as disciplinas da área das exatas na época como era chamadas hoje Ciências da Natureza( Física, Química e Biologia) Nas provas sempre interpretava ao contrário.

Na faculdade os trabalhos em grupo ajudavam bastante, mais eu sempre estudava muito, sai da aula e chegava em casa e já começava a escrever a explicação do professor, eu era ate motivo de piada das minhas colegas “ Andrea, Andrea, professore respirou anota ai”.Eu achava engraçado e não ligava, porque sabia que minha memória nunca foi muito boa, lembro que minha mão doía muito , mas continuava escrevendo( porque sabia se eu não anotasse a explicação do professor eu não iria lembrar ao chegar em casa).

Como era muito tímida também não tinha uma boa oralidade, ainda mais que sempre troquei na fala como na escrita o /d/ pelo /t/ o /v/pelo /f/ e tinha muita vergonha de falar.

Aqui eu quero fazer uma observação as trocas de fonema para muitos disléxicos, não tem haver com ser alfabetizado ou não, a pessoa conhece os fonemas e alfabetizado, mas mesmo assim a trocas , a forma que o cérebro enxerga e diferente, distorcida, trocada. Exemplo se você pedir para eu teclar o f eu vou automaticamente tocar no V, mais como tenho uma coisa primoirdial (aqui escrevi errado para exemplifica, no primeiro momento eu leio a palavra como estivesse correta, mas como já treino bastante, na 2ª vez eu percebo o erro, mas ás vezes não percebo ai entra o outro para revisar ou ler meu texto.

1- CONSCIENCIA DO ERRO, PERCEBER O ERRO (diria o ápice do atendimento psicopedagógico)

2- MODELOS E ESQUEMAS DE REDAÇÃO OU DO TEXTO QUE VAI ESCREVER( Não se preocupe que geralmente o disléxico e criativo, tem muitas ideias, mais só não consegue colocar no papel e seguido um modelo, utilizando o lugar dos conectivos, virgulas e parágrafos e ele segue mais vai colocar com suas próprias palavras. O DISLEXICO SOZINHA NÃO CONSEGUE PRODUZIR UM TEXTO SE NÃO TIVER ORIENTAÇÃO DOS PASSOS A SEGUIR.

3- Dificuldade na lateralidade e orientação espacial( vou 10 vezes em um mesmo lugar e assim erro tenho que ir 15 para poder memorizar o caminho.

4- DIRIGIR . uma das maiores dificuldades do disléxico dirigir, a minha e estacionar em fila indiana. Eu repetia e esquecia, mais como treinei mais de 50 vezes consegui automatizar e aprendi.

5. AUTOMATIZAÇÃO ( Ah uma das principais coisas principalmente na alfabetização, muitos disléxicos não consegue aprender a juntar as palavras, devido ao problema grande de memória que esquecem e ai não consegue automatizar, tenho 2 alunas nesse nível, não consegue passar da leitura das palavras simples.

6. MEMORIA SEMANTICA( Eu leio muito, mas não guardo a grafia das palavras, eu guardo a essência do livro, a criticidade, uma visão geral, e como meu cérebro lesse mais não registrasse o que ler, principalmente no que se refere a concordância e a grafia das palavras.

7. PRODUÇÃO ESCRITA: O grande pesadelo, quer sair escrevendo e sem se preocupar com as regras gramaticais, não porque quer, porque dominar as regras e extremamente difícil.

8.AUTO-ESTIMA BAIXA: Mesmo que a vida toda seus pais dissessem que você e inteligente e só vive para estudar, mas você se cobra porque percebe que quer 100% e só consegue 80%, ai vem a frustração e a não aceitação da sua dificuldade ai e isso e complicado, dizer que e feliz porque tem dislexia, chega a ser hipócrita, pois na verdade o que eu sempre quis foi falar bem e escrever bem, ou seja, NÃO PRECISA NINGUEM CHAMAR O DISLEXICO DE BURRO PARA SE SENTIR COM BAIXA AUTO-ESTIMA E ELE MESMO SE CHAMA.

9. Como digo para meus alunos existe 2 caminhos para os disléxico:

• Um se fazer de coitadinho e falar não consigo e não vou tentar;

• Ou estudar, estudar, tentar, tentar, quantas vezes for necessário e olhar para o que você não fazia antes e hoje faz.

ACEITAÇÃO DE SUAS LIMITAÇÕES SEM SE MENOSPREZAR FAZ TODA A DIFERENÇA. NUNCA DESISTA DOS SEUS SONHOS, UM SONHO CONSEGUI APRENDER DIRIGIR, ALTA MAIS UM FAZER UM PRÉ- PROJETO, OU PASSAR NA PROVA DO MESTRADO DO INSTITURO FEDERAL QUE É MEMORIZAÇÃO PURA!

Andrea é mais um exemplo de que a dislexia é um dom, pois buscou superar os obstáculos apresentados no transtorno e conquistou seu espaço. Parabéns Andrea Regina!!!


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