• Maria Silvana Alves

UM POUCO DE MIM...


DISCALCULIA DO DESENVOLVIMENTO


E a nossa semana dedicada à matemática chega ao fim. Foi uma semana de muito aprendizado! Dicas de livros, jogos, atividades, enfim, muito produtiva! Como dissemos no início da semana, há uma grande quantidade de disléxicos que apresentam o transtorno específico em matemática, ou seja, a discalculia, numa correlação entre 20 a 40% entre eles (Schulte-Koörne, 2010) e, infelizmente, alguns pais e professores desconhecem os sinais desse transtorno.


Através desses depoimentos, queremos trazer mais informações sobre a discalculia e as consequências que pode acarretar se não for identificada e acompanhada a tempo. Trazemos dois depoimentos: o de uma jovem discalcúlica e também daquela que vem acompanhando todo o seu desenvolvimento desde o dia do recebimento do diagnóstico – sua mãe. Um relato emocionante que revela o quanto é importante a parceria entre escola, família e equipe multidisciplinar para que o paciente com discalculia ou qualquer outro transtorno, possa desenvolver ao máximo seu potencial!


UM POUCO DE MIM...


Olá! Tenho 17 anos de idade e estou no 3° ano do ensino médio!

Aos 11 anos de idade recebi um diagnóstico de TDHA e discalculia, mas os sintomas que eu apresentava foram percebidos por minha mãe e alguns relatos de professores que estavam me acompanhando no início de minha vida escolar. Lembro-me que, provavelmente, por volta dos 7 anos, já fazia acompanhamentos com T.O. (Terapeuta Ocupacional), psicopedagoga e psicóloga. Fui encaminhada a um neurologista por volta dos 10 anos de idade. Os especialistas faziam testes de atenção, concentração, cálculos mentais com agilidade, porque as minhas dificuldades eram seguir regras, organização, atenção e cálculos mais simples. Lembro-me que não era fácil, porque eu era cobrada das tarefas escolares e diárias como se eu tivesse preguiça ou não quisesse fazer o certo. Eu até queria, mas a memória de curto prazo me impedia. Os números eram os violões da minha memória e, por mais que eu quisesse, eles não colaboravam nas provas e nos cálculos exatos. Os professores, em sua maioria, não estão preparados para receber alunos com transtornos de atenção e suas dificuldades e isso, infelizmente, causou muitos danos na minha vida escolar.

Vou lhes contar o que vivenciei com uma professora de Matemática com o Q.I. acima da média. Lembro do dia que eu havia tirado nota baixa na prova (na verdade, nota zero) em matemática e quando a minha mãe ficou sabendo, foi conversar com a coordenação, levando meus laudos e relatórios médicos e terapêuticos na escola .

Minha mãe falou com os coordenadores e a professora disse que não iria seguir as orientações dos laudos e relatórios que foram prescritos por especialistas para me ajudar. Ela só acreditaria quando um especialista da educação fosse me avaliar na escola e dar orientações comprovando que realmente eu tinha um diagnóstico de Discalculia e TDAH. Os educadores da escola entraram em contato com uma especialista da educação e ela comprovou que eu tinha um diagnóstico e que, de fato, eu precisava de um tempo maior para executar as provas, assim como de fazer uso de calculadora, de fórmulas e materiais concretos.

Sim! Eu precisava de ajuda! Não porque sou preguiçosa, por vagabundice ou burrice! Tudo isso é porque meu processamento é mais lento do que dos demais alunos que não apresentam um transtorno. Confesso que o que é mais horrível e dói são os rótulos que colocam na gente por conta de uma limitação!

Eu não sou assim porque eu quero! Eu juro que se eu pudesse pegar uma varinha mágica, transformaria minhas dificuldades a fim de ter uma vida normal, com uma memória mais adequada e um Q.I. acima da média, mas o que me resta é abraçar a minha vida e saber lidar com cada desafio novo! Hoje eu me aceito e me amo exatamente como sou! Preciso de terapia com a Fonoaudióloga, uma profissional que tem me ajudado a superar a timidez e até mesmo interpretar melhor o que ouço, vejo e até mesmo como eu falo.


Além dessa profissional, a psicopedagoga também tem me ajudado na atenção, concentração, organização mental e raciocínio. A psicóloga me ajuda a saber lidar com meus medos, aceitação, com as pessoas ao meu redor e com minha autoestima. A neurologista é hoje um anjo para mim. Ela me ajuda com a medicação que também contribui com minha organização. Ela me disse que logo eu irei me livrar dos remédios, porque tem dado super certo as terapias com os profissionais que eu citei a pouco. Cada um deles tem a sua importância na minha vida e na minha história!

Hoje eu procuro vencer essas limitações que precisei enfrentar para chegar onde desejo que é cursar uma Faculdade e ter uma qualidade melhor de vida. Isso só foi possível graças a Deus e as terapias multidisciplinares com fonoaudióloga, psicóloga, psicopedagoga, neurologia e medicação que faço uso somente para ir à escola no período de aula ou provas. Tenho duas pessoas muito especiais a agradecer! Essas duas pessoas são, primeiramente, a Deus que tem me sustentado, me ajudado e tem feito o melhor para que eu possa superar as minhas dificuldades até hoje, pois com muita fé e força eu venci e vencerei porque ele é a minha força. A segunda pessoa é a minha mãe que, desde o começo, tem me compreendido, me ajudado a enfrentar todas as barreiras que tentaram me impedir de superar as minhas dificuldades.

E você que está lendo este depoimento, acredite que é possível vencer e se você conhece alguém que tem um diagnóstico de Discalculia e TDAH, compreenda e tenha um olhar diferenciado de amor e esperança, porque é tudo o que precisamos para vencer.


UM POUCO DA SUPER MÃE...

Sou L., mãe da jovem Linda que acabou de relatar um pouco da sua experiência de vida pra vocês. É assim que desejo chamá-la no meu relato para preservar sua identidade. Linda, como ela já relatou, tem 17 anos, está no 3° Ano do ensino médio e apresenta diagnóstico de TDHA e discalculia do desenvolvimento.

Espero poder ajudar a quem ler esse relato, porque confesso que quando descobri o laudo da minha filha, gostaria muito de ter lido algum relato como esse que pudesse me ajudar naquele momento.

Vamos lá! Linda nasceu prematura, com 22 semanas e pesando 565 gramas devido a uma pré-eclâmpsia que tive na gestação. Após 120 dias de UTI, ela teve alta e veio para nossa casa. Andou com 11 meses e sua rotina de bebê era normal e, comparada à sua idade cronológica, estava tudo dentro do esperado, pois eu fazia os acompanhamentos médicos corretamente.

Quando ela foi para a educação infantil , aos poucos, começamos a nos incomodar com algumas desatenções, esquecimentos, desorganização, enfim, um comportamento diferenciado. A professora do 1°, 2° e 3°Ano do ensino fundamental elogiava o seu comportamento, porque Linda sempre foi uma criança serena e tranquila, mas o sinal de alerta era que ela parecia sempre estar no mundo da Lua, devido a muita desatenção e esquecimento (memória curta). Ela não conseguia acompanhar as atividades deixando sempre lições incompletas, porque o tempo para ela parecia ser pouco. Isso não acontecia somente na escola e sim em casa também. Eu notava que não poderia ter mais de um comando a ser dado, porque Linda precisava de um tempo maior e se confundia por terem sido dadas várias atividades ou informações ao mesmo tempo!

Um de seus maiores desafios sempre foi a Matemática, porque ensinávamos em casa em um dia e no dia seguinte ela já esquecia cálculos comuns. Ela não conseguia fazer com autonomia e hoje me arrependo de minhas atitudes, porque como eu ainda não sabia do transtorno, ficava furiosa com ela. Eu achava que ela estava fazendo de propósito pra obter a resposta. Ela mostrava muita dificuldade na contagem de dinheiro. Cédulas e moedas sempre foram maçantes para ela, pois tinha dificuldade de lidar com valores e, na maioria das vezes, não conseguia ou se conseguia, era com tempo maior. Pagamos aulas com professores particulares para dar o reforço pedagógico, pois achávamos que estava faltando mais repetições do conteúdo para ela. Sou uma mãe que luta ao lado dela em cada batalha e tudo que eu gostaria era de vê-la bem . As dificuldades e limitações que ela apresentava, também passaram a serem as minhas, porque eu não sabia o que fazer e nem como ajudá-la! Eu via que essas dificuldades traziam também para Linda, um distanciamento social com os amigos o que causou e ainda causa um sofrimento e angústia a ela, pois ela não quer ser assim. Foi então que decidimos buscar ajuda com profissionais orientados pelos educadores da escola. Iniciamos com T.O. (Terapeuta ocupacional), logo em seguida, fomos para psicopedagoga, fonoaudióloga, neuropsiquiatra e psicóloga.

Iniciadas as sessões de terapias, a neuro nos deu um diagnóstico de TDHA e discalculia. Eu não sabia nada sobre esses transtornos e era mais um desafio novo para então enfrentarmos juntas e vencer. Nesse tempo, após o diagnóstico, foi prescrita a medicação para auxiliar na atenção, uma vez que estava atrapalhando a vida escolar dela. Confesso que como mãe relutei, mesmo porque eu desconhecia que naquele momento um remédio tarja preta traria um benefício necessário para que ela pudesse ter uma qualidade melhor de vida e aprendizado. Na verdade, eu só pensava que ela poderia ficar dependente da medicação, mas graças a Deus, pelas orientações de um médico neuropediatra, um anjo chamado Dr. Eduardo, pude compreender a real necessidade e que não causaria jamais uma dependência futura.

Sofri muito, porque a cada dia é um passo de cada vez! Sofremos muito por não termos informações que nos ajudassem com clareza e acredito que ela tenha sofrido muito mais por não compreendermos exatamente a condição que se apresentava naquele momento. A nossa maior batalha foi a inclusão. Os professores não visualizavam (e alguns, até hoje não visualizam) o aluno com diferentes possibilidades de aprender e isso me angustiou muito, mas creio que daqui pra frente a educação pode mudar. A informação pode chegar a todos e isso vai depender muito de quem passou por situações como eu passei, estender a mão amiga ou de encontrar profissionais como nós encontramos que sabem a importância de ajudar e ter um olhar diferenciado!

Então Deus colocou em nossas vidas um anjo, uma profissional com esse olhar, a Maria Silvana, a psicopedagoga de Linda. A cada sessão de terapia, ela nos acolheu para nos mostrar que minha filha não poderia ser paralisada por uma condição e que o objetivo que deveríamos buscar para Linda, deveria ser ir além de suas dificuldades e obstáculos até alcançar seus sonhos e objetivos! Eu tive que apreender que não posso ser para sempre uma “muleta” de apoio da minha filha e sim estar ao seu lado para todas as lutas aplaudindo suas conquistas e apoiando nos seus sonhos e metas.

Minha Linda continua a evoluir e a se superar a cada dia. Um passo de cada vez, no seu tempo, buscando aprender e desenvolver com as terapias com a fonoaudióloga (gente parece que não, mas é essencial!) que é outro anjo que Deus nos enviou. A psicóloga também tem nos dado grande forças enfim, toda a equipe multidisciplinar tem sido essencial para minha filha!!!

Na última consulta que tivemos com a Neurologista para medir a dosagem da medicação, ela nos deu uma ótima noticia!! Uau!!! Essa notícia me deixou muitíssimo feliz, pois disse que logo estaremos fazendo o “desmame” da medicação que é, para mim, um grande avanço, porque sabemos que toda medicação traz seus benefícios e também seus malefícios à saúde de quem precisa fazer tratamento.

Hoje agradeço a Deus por ter escolhido minha filha para ter discalculia e TDHA, pois sua sensibilidade e carinho tem nos feito cada dia melhores e sei que por onde ela passar, fará diferença, ou seja, será diferencial na vida de alguém.


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