• Maria Silvana Alves

TODA ESCRITA ESPELHADA É UM SINAL DE DISLEXIA?



O ingresso da criança no mundo da escrita, assim como da leitura, é um dos momentos mais esperados por pais e professores. Como vai ser sua letrinha? Como vai se expressar através da língua materna? Parece que não, mas vejo algumas crianças fazendo do ato de escrever uma “coisa séria”. Nas brincadeiras, nos recortes, nos desenhos, esses ninos e ninas já estão preparando as mãozinhas para estrearem nesse universo no qual vão poder organizar seus pensamentos e emoções. A escrita dá a criança o direito de fazer os seus próprios registros de palavras para depois poder mostrar às pessoas com quem convive.

No entanto, para algumas crianças, este momento pode ser marcado de forma negativa devido à falta de estimulação, pela presença de um transtorno específico de aprendizagem, por dificuldade momentânea em compreender o código escrito ou por serem canhotas.

De acordo com Dehane (2012), as crianças em geral enfrentam momentos de dificuldades na fase de alfabetização e os problemas na identificação das letras ou na forma de registrá-las de forma espelhada, é algo esperado. Quando as crianças começam a fazer uso da escrita, letras e números frequentemente são registrados de forma invertida, ou seja, da direita para a esquerda. Já vi casos de crianças que escreviam no final da linha e seguiam em direção ao início da pauta. Piaget e Inhelder (1980) e Dehane (2012) afirmam que antes dos 7 anos a criança ainda está em processo de maturação neurobiológica e pré-requisitos como noções de lateralidades, ainda estão em construção. Esta “escrita estranha” (que também já foi chamada pelo termo grego de xenografia) costuma aparecer entre os 4 e 7 anos de idade.

Aos poucos a criança vai compreendendo algumas convenções do SEA (Sistema de Escrita Alfabética) e os casos de escrita espelhada tendem a desaparecer. Ela também vai percebendo que as letras podem mudar de som dependendo da posição que ocupam em uma palavra. Por exemplo, a letra S entre duas vogais vai apresentar o som de /Z/ como em VASO e no início da palavra, o som de /S/ como em SAPO, entre outras. Agora o sinal de alerta dos pais deve ser acionado quando a criança já está na idade entre os 8 e 10 anos e essa forma espelhada persiste, afirma Dehaene (2012).

Dentre as causas da escrita espelhada em crianças, temos a questão da lateralidade que ainda está em consolidação nos pequenos e questões relacionadas a problemas de percepção, também em desenvolvimento. Segundo Resende (2013), “disseminou-se a crença, tanto no meio clínico quanto no meio escolar, de que as inversões de letras poderiam ser indícios definidores de dislexia. A escrita espelhada é uma ocorrência comum e frequente nos primeiros anos de escolarização e não pode ser considerada como indício de distúrbios e patologias.”

Com a estimulação adequada, a criança vai se desenvolvendo e a escrita espelhada vai desaparecendo. No entanto, se o espelhamento persistir após a idade de 8 anos, pode não ser um sinal exclusivo da dislexia, mas também estar associada a outros transtornos como disgrafia, Síndrome de Irlen, problemas na coordenação motora, etc.

O espelhamento na escrita ainda pode ocorrer frequentemente em crianças canhotas que estão iniciando o processo de escrita. Como em nossa língua a direcionalidade da escrita ocorre da direita para a esquerda, os canhotos podem ser “obrigados” a executarem o movimento contrário da sua mão para a escrita. Assim, enquanto os destros escrevem com tranquilidade sobre o papel, os canhotos vão empurrando o lápis para escreverem, fazendo uso de mais força e podendo sujar o material e as mãos com o grafite do lápis. Esse aspecto faz com que as crianças canhotas possam enfrentar mais desafios para escrever do que as crianças destras.

Em relação às pessoas canhotas com dislexia, é possível que a escrita espelhada seja um efeito do transtorno. Observe na imagem abaixo os registros de Leonardo da Vinci.

(foto da escrita de Da Vinci)


Dessa forma, é preciso respeitar o tempo de maturação neurobiológica da criança, fazer a estimulação adequada e procurar avaliação de um especialista caso o registro espelhado persistir. Um profissional saberá investigar e orientar a família quanto ao que deve ser feito para que a criança possa avançar em seu processo de aprendizagem.


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