• Maria Silvana Alves

OS JOGOS DE EXPRESSÃO DRAMÁTICA E SUAS CONTRIBUIÇÕES NAS DISLEXIAS




Recorrendo ao dicionário Michaelis, gostaria de destacar dois significados do verbete LINGUAGEM, para contextualizarmos o post de hoje.

Linguagem lin·gua·gem sf . 2 LING Conjunto de sinais falados, escritos ou gesticulados de que se serve o homem para exprimir esses pensamentos e sentimentos. 5 Qualquer meio utilizado pelo homem para se comunicar.

Muito bem! Se linguagem é assim definida, é preciso romper de uma vez por todas com o senso comum de que ela é constituída somente de palavras escritas ou faladas e ampliar nossa visão para outras estratégias que podem contribuir – E MUITO – para o desenvolvimento de crianças e adolescentes que apresentam a dislexia do desenvolvimento.

“Sem jeito”, estabanada, lerda, preguiçosa.... esses eram alguns dos predicativos que lhe eram atribuídos constantemente. Aos seis anos, deu-se o encontro com as letras, um encontro com poucas lembranças, quase todas sinestésicas: “cheiro da borracha, sala escura”, recreios dentro da sala... Desde pequena, a paixão pelo teatro já era muito intensa: “fantoches com papel de pão, restos de tecido e lã” e a apresentação acontecia sobre o muro de sua casa para as pessoas que caminhavam na rua. O teatro dava sentido àquela criança que não compreendia seu mundo disléxico tão peculiar. Sua vida escolar na infância foi marcada por horas e horas estudando com professores particulares, e o mais interessante foi o quanto se destacou nas disciplinas de História e Física, devido à metodologia sinestésica adotada pelos professores. Talvez ninguém de seu convívio compreendia os motivos pelos quais não conseguia aprender como seus pares.. O primeiro a identificar suas dificuldades foi o orientador do TCC da graduação em teatro: “Paula, vou ficar satisfeito com o que você produziu, pois percebo que você tem algo. Não sei o que é.”


Estamos falando de Paula Gotelip. Mãe, artista arteira, professora de teatro, bacharela em Artes Cênicas pela UFOP (Universidade Federal de Ouro Preto), pesquisadora em teatro, mestra e doutoranda em Arte pela UDESC (Universidade do Estado de Santa Catarina), descobriu sua dislexia somente aos 33 anos. Em seus relatos, nos conta que há seis anos, mais precisamente no dia 8 de outubro (que, por coincidência, é considerado o dia Mundial da Dislexia), passou por duas experiências muito marcantes: um acidente de trânsito e o recebimento de seu laudo de disléxica! “Neste dia tirei uma dor da alma, mas ganhei uma dor no corpo.” Filha de pai disléxico e mãe de Júlia, uma criança que também apresenta a dislexia, a pesquisadora, hoje, aos 39 anos, aborda sobre algumas das micro-habilidades que ainda se apresentam em déficit na sua dislexia tais como a memória, a lateralidade e dificuldade de leitura e escrita pela qual desabafa: “meu cérebro me sabota o tempo todo” . Falou também sobre como o teatro tem ajudado, dia após dia, a como melhor gerenciar tanto as suas dificuldades quanto às de sua filha.

Atualmente, seu trabalho está voltado em contribuir na aprendizagem de escolares com dificuldades de aprendizagem, em especial autistas e disléxicos fazendo uso de ferramentas teatrais. Para Paula “o teatro, o brincar e a literatura se fundem”.



“O jogo teatral permite ao aluno um local entre o dentro e o fora, entre a realidade e a fantasia. Este ‘entre’ é a porta de acesso para acessar a criança e manter a concentração e o estado de alerta. A responsabilidade coletiva da criação promove o envolvimento necessário para desbloquear estigmas e estabelecer novos caminhos. A repetição de cenas expressivas traz o encontro das palavras de diversas formas podendo ser testadas, esquecidas, assimiladas e substituídas. O teatro é vida!”


Em seu projeto de pesquisa “Atuando para leitura; leitura para atuar” , busca apresentar os impactos positivos do teatro nas crianças com dislexia em relação aos aspectos sociais; sobre o despertar da consciência fonológica e sobre o armazenamento lexical bem como ampliação do repertório das palavras, decorrentes dos jogos de expressão dramáticos e do contato frequente com os textos.


Como mãe, também tem vivido novas experiências nessa pandemia, fazendo uso dos instrumentos do teatro para auxiliar sua filha nas tarefas escolares remotas. “Dislexia é algo muito além das palavras, é uma maneira de ser e de estar no mundo, onde não há apenas um caminho, mas sim caminhos que podem ser divertidos, se você permitir.”

O vídeo a seguir, Teatro e Inclusão: diálogos sobre modos de fazer, é uma edição da live feita pelo canal no Youtube Teatro em Quarentena, do projeto Teatro e Neurodiversidade e da oficina Teatro e Inclusão, realizado no dia 8 de outubro. Nele, Paula relata suas experiências na infância com a dislexia e seu projeto que tem como foco utilizar o teatro como estratégia de intervenção nas dislexias.



Instagram: dislexia_e_teatro

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