• Maria Silvana Alves

DICAS DE LIVROS PARA VESTIBULAR - PARTE 2

5) O ATENEU - RAUL POMPEIA

https://panqks.com.br/literatura/resenha-o-ateneu-por-raul-pompeia/

Genericamente, considera-se este romance de Raul Pompéia como do realismo. No entanto, a crítica diverge sobre este aspecto, colocando-o ora entre os naturalistas, ora entre os simbolistas. A verdade, no entanto, é que O Ateneu transita em muitas das vertentes modernas, mesmo o expressionismo e o impressionismo. Isto se dá porque suas características, diversas, anulam sua classificação em alguma escola específica, embora flertem com várias destas.

Assim, tem-se, nesta obra, a subjetividade cáustica da visão de Sérgio, personagem principal. Mas, igualmente, tem-se uma narração seca e debochada, contando da realidade do internato no qual o garoto se inseria. Além disso, a prosa é demais musical, metafórica, pondo-se longe das intenções científicas usuais do naturalismo. Não satisfeito em não se prender a um movimento específico, Raul deixa sua prosa vazar, ainda, à poética, e mesmo ao ensaio crítico. Tudo isto faz com que este trabalho, uma refinada quimera, seja algo ímpar de seu tempo.

Pompéia era, por excelência, um intelectual que caminhava por diferentes formas literárias, dominando mesmo a prática das charges. Estas renderam-lhe muitos desafetos, inclusive com antigas amizades, como Olavo Bilac. Em meio ao desgaste provocado por estas brigas, talvez culpa de sua descontente natureza crítica e direta frente ao que não considerava certo, suicidou-se. Claro, encontrava-se em um quadro depressivo. De agravante da doença, fala-se mesmo de uma suposta homossexualidade do autor, fazendo com que se sentisse mal compreendido à sua época.

Estes dados são interessantes de se conhecer para compreender melhor o livro, com fortes tons autobiográficos. Afinal, Sérgio soa como a personificação mesma do jovem autor — ambos foram abandonados em um mundo que, não os respeitando, acabou por consumi-los de amarguras, feito as chamas consumiram o colégio Ateneu. Tais chamas, já no fim da obra, tratam-se do fim do ciclo iniciado quando o merencório Sérgio matriculou-se na escola.

Esta matrícula representa um brusco momento de ruptura, no qual o protagonista vê-se destituído do conforto de seu lar burguês, seu mundo doméstico seguro e afetuoso. Ele é jogado aos leões e, em meio ao terror, tem de sobreviver entre fortes ou sucumbir aos fracos. Dentre adolescentes grotescos e rudes, não há sequer neutralidade, apenas indiferença. A personagem principal, então, acaba por sucumbir, deixando-se ser fraco. E não tarda a encontrar a proteção necessária a seu sexo frágil: o amor de outros rapazes.

Infelizmente, por conta do período em que a obra fora escrita, todo romantismo do livro acaba por se limitar a pequenas cenas passageiras, quase furtivas e cheias de eufemismos. Um exemplo disto é o singelo momento em que Sérgio e Egbert comparam-se aos amantes de um romance francês, ou quando Bento envia flores àquele, um gesto que Sérgio toma por namoro e paixão. Paixão que se destrói, inclusive, como quase tudo em O Ateneu: incendiariamente. É quase como se Pompéia inventasse o conceito de guiltypleasure.

Dentre as obras do século XIX, portanto, pode-se situar o romance homossexual deste livro em algum lugar em meio da inocência e amor infantil de A Moreninha e da brutalidade fulminante de Bom-Crioulo. Este trabalho transita tanto entre estes conceitos que, pouco antes do fim, assim que Sérgio reencontro a segurança estável de seu lar na figura de Ema, ele parece-se esquecer completamente das paixões que nutria pelos outros rapazes. Ora, a esposa do diretor Aristarco compartilhava de seus sentimentos de não pertencimento, enchendo-lhe de carinhos e cuidados.

Pouco depois da cena em que Sérgio é tirado mesmo dela, dá-se a consumação ígnea do colégio. Esta funciona, portanto, feito uma última vingança: o triunfo do cáustico Sérgio sobre o Ateneu. Por estes aspectos, o livro de Raul aproxima-se, em muitos temas, de Demian, do alemão Hermann Hesse. Os dois, afinal, tratam de um processo amargado de amadurecimento; da perda da inocência e doçura levadas à cabo quando da perda abrupta dos meninos protagonistas da segurança burguesa de suas casas.

A competência literária de Pompéia é indubitável, tendo conseguido compor um livro claro e objetivo, extremamente tangível e corpóreo o qual, ainda assim, valeu-se dos eloquentes recursos prosaicos do simbolismo. Na obra, são estes os aspectos que a tornam tão charmosa, e que permitem que o foco narrativo, originário da visão de Sérgio, desloque-se com naturalidade dentre outras personagens do corpo docente e discente. Destarte, pode-se dizer que O Ateneu é bem mais complexo, esteticamente, que uma autobiográfica crônica de saudade, como seu narrador o trata.

Qualquer coisa que se fale a respeito deste livro, especialmente no escopo limitado de uma resenha, não será o bastante para captá-lo bem. Mais vale lê-lo, e deleitar-se com a grandiosidade das partes que o compõe: de sua mistura de gêneros ou de escolas literárias, de sua prosa rica com descrições abundantes de um Rio já perdido, do pano psicológico subjetivo profundamente trabalhado, e, principalmente, das críticas que vão se estendendo capítulo após capítulo.

6) A RELÍQUIA - EÇA DE QUEIRÓS

https://cine104.fandom.com/pt-br/wiki/Resenha_sobre_o_livro_A_rel%C3%ADquia

O livro "A relíquia" de Eça de Queirós (Póvoa de Varzim 1845 – Paris 1900) foi publicado pela editora typographia de A.J. da Silva em 1887 na cidade de Porto, Portugal. O escritor português formado na Universidade de Coimbra onde se formou em Direito, exerceu o cargo de jornalista e advogado. Queirós ficou consideravelmente bem conhecido pelo seu livro de romance, publicado em 1875, chamado "O Crime do Padre Amaro" e por isso muitos dos seus livros eram recheados de críticas.

O livro conta a história de Teodorico Raposo, conhecido pelos mais íntimos como Raposão, que, após a morte dos pais foi morar com sua tia, Dona Patrocínio das Neves, em Lisboa. Desde então, ele passou a sempre rezar e ir à missa com sua tia, mas o fazia apenas por seu interesse na herança que um dia ela poderia lhe dar.

Raposão, já adulto, mantinha em anonimato a parte da sua vida que continha os “relaxamentos” e mulheres, pois isso era o contrário de tudo que sua tia pregava. Um dia ela o mandou para uma peregrinação em Jerusalém, para lhe representar. No caminho, Raposão passa por Alexandria, onde conhece Mary que, na despedida, o presenteia com sua camisola. Em Jerusalém encontrou uma árvore de espinhos e cortou um ramo, dizendo que era a coroa de Jesus e levou para a tia, que havia pedido a mais santa das relíquias, enrolada em uma embalagem idêntica à da camisola.

A história critica fortemente a hipocrisia religiosa católica da época, fazendo citações à morte de Jesus completamente diferentes das presentes na bíblia. Tem um certo humor na ironia que acontece no desfecho e nas demais partes da narrativa, como no fato da tia ser tão moralista e o sobrinho tão boêmio e imoral. Também critica o interesse humano no dinheiro, porque o sobrinho age de forma diferente na presença da tia apenas para agradá-la. Mesmo com tudo dando errado nos planos de Teodorico, ele nunca perde a esperança em conseguir a herança da sua tia, o que mostra que ele tem uma grande autoconfiança. Tem uma linguagem arcaica que pode dificultar um pouco a leitura, mas tem um enredo muito atrativo cheio de surpresas e decepções para o leitor.

A leitura da trama leva a reflexão com os temas atuais da sociedade, como por exemplo, a infidelidade praticada na trama por Teodorico com sua tia e também por Adélia com o Raposo. Visto que os temas abordados no livro mesmo sendo de uma época de publicação antigas, ainda estão presentes em nossa sociedade.

7) CLARO ENIGMA – CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

https://www.miriambevilacqua.com.br/claro-enigma

Para se entender um livro de um escritor importante como Carlos Drummond de Andrade, é preciso estudá-lo dentro do contexto da obra do escritor. Drummond, que nasceu em 1902, em 1951 quando Claro Enigma é lançado, já tem 49 anos e já está em uma fase mais madura como homem e como poeta, além de já ter sofrido alguns desencantos. Então, é normal que a sua obra também sofra a influência da fase que o escritor está vivendo.

É um momento após segunda guerra em que o mundo ficou dividido entre o capitalismo e o comunismo e, por isso mesmo, muito polarizado, sem espaço para se pensar outras formas de regime que fossem mais apropriadas, mais humanas. Entretanto, não é apenas por isso que vamos encontrar um Drummond desencantado, mais melancólico. Em O Observador no Escritório, que é o diário do escritor, é o próprio Drummond que explica a dedicatória que ele fez ao poeta Américo Facó e que nos ajuda a entender em que estado Drummond estava quando escreveu Claro Enigma:​

"Na casa da Rua Rumânia, durante três noites, confiei-lhe os originais do meu livro Claro Enigma e ouvi suas opiniões de exímio versificador. Eu “convalescia” de amarga experiência política, e desejava que meus versos se mantivessem o mais possível distantes de qualquer ressentimento ou temor de desagradar os passionais da “poesia social”.​ Qual era essa “amarga experiência política”? Drummond havia trabalhado na campanha política do também mineiro Cristiano Machado, candidato do PSD, Partido Social Democrático à presidência. Ele e Cyro dos Anjos eram encarregados de escrever discursos para o candidato. E o seu candidato, Cristiano Machado, perdeu de forma esmagadora para Getúlio Vargas.

Na epígrafe, em francês, les evenements m'ennuient de Paul Valery que quer dizer, os eventos me aborrecem, o escritor, praticamente, já prepara o leitor para esse seu estado de espírito. Há uma melancolia, uma perda do ideal revolucionário.

O livro foi dedicado ao também poeta Américo Facó, porque este havia lido e analisado os originais. Ao pedir para que Facó examinasse os originais de Claro Enigma, Drummond entendia que Facó era um poeta isento em relação às modas ou às tendências da época e já dizia que ele era um exímio versificador, já que Claro Enigma fazia um retorno à tradição de versos com rigor formal. Era uma experimentação que Drummond estava fazendo, um livro em que ele vai testar muitas formas diferentes de escrita.

Drummond foi um admirador da geração de 22 que lançou o modernismo no Brasil e ele próprio também se tornou um modernista da segunda geração. E o que pregavam os modernistas? Versos livres, rimas livres, linguagem mais coloquial. Desta forma, os primeiros livros de Drummond seguiram a estética modernista, livros importantes como Sentimento do Mundo e a Rosa do Povo. Esses livros eram também de uma fase em que Drummond estava bastante preocupado em se tornar um ser político, então seus versos vão ser versos voltados para o social e para os problemas da coletividade.

Em Claro Enigma tudo isso se altera e por isso é um livro tão importante na trajetória do escritor, é um livro de ruptura. O poeta, antes tão preocupado com o social, desaparece e surge um poeta extremamente reflexivo preocupado muito mais com seu interior. E a forma de sua escrita também se altera. É um momento que o Drummond experimenta formas mais clássicas como o soneto que é constituído de 14 versos, duas estrofes de 4 versos e duas estrofes de 3 versos. Com Claro Enigma, o poeta resgata o verso clássico, a poesia formal, as rimas e um rigor literário muito maior do que estava acostumado.

É o livro de Drummond mais minuciosamente construído e que dá início a uma preocupação com a metrificação que vai aparecer também em Fazendeiro do Ar e em A vida passada a limpo, que seriam seus livros futuros. Apesar do formalismo que caracteriza esses livros, isso não quer dizer que o verso livre tenha sido enterrado. Várias formas de escrita vão conviver, a partir de então, na obra do poeta.

Em Novos Poemas, que é o livro anterior a Claro Enigma, lançado três anos antes, o último texto desse livro chama-se, justamente, O Enigma e nele, Drummond diz que pedras caminhavam quando surgiu uma coisa que as paralisou e elas ficaram paradas para sempre e que essa coisa sombria que as paralisou constitui-se em um enigma. E o poeta completa: o enigma tende a paralisar o mundo. Já havia então, anteriormente, a figura do enigma presente na obra do escritor e, provavelmente, a vontade de melhor trabalhar essa figura.

Quando se pensa em um enigma, imediatamente nos vem à cabeça um dilema a ser resolvido. Um enigma é algo que a resposta não está exposta, ela é obscura, precisa ser descoberta. Mas, se esse enigma for claro, já é uma contradição. A obscuridade e a clareza são coisas paradoxais. E aí já começa um jogo de esconde e mostra de Drummond.

Claro Enigma é um livro com 41 poemas, que o autor já entrega ao leitor dividido em seis partes, cuidadosamente pensadas. Elas não são partes estanques. Elas conversam uma com a outra e dão unidade ao livro. Há um caminho traçado a ser percorrido. A primeira parte Entre Lobo e Cão é constituída de poemas escuros, que lembram as trevas, as noites. Essa escuridão vai perdendo força, à medida que o livro vai caminhando. No final, há a volta da cor e da luz, justamente, no último poema, chamado Relógio do Rosário. Então, percebe-se aí uma das características do livro que é essa construção requintada com uma meta definida, da escuridão à luz, do enigma à claridade.

Há também em Claro Enigma a presença fortemente marcada da intertextualidade, ou seja, o texto do Drummond vai conversar com o texto de outros autores como Camões, Dante e Sá Miranda.

AS PARTES


I - Entre Lobo e Cão

Entre Lobo e Cão é uma referência a um verso do poeta português Sá Miranda, que quer dizer que no claro dia você está na escuridão. Logo nos primeiros versos do primeiro poema Dissolução, Drummond diz:

Escurece, e não me seduz

Tatear sequer uma lâmpada.

Pois que aprouve ao dia findar,

Aceito a noite.

Há uma clara aceitação do período sombrio e o poeta não quer sequer procurar uma lâmpada. No poema seguinte, chamado Remissão, de novo há um desânimo, um enfraquecimento.

A primeira parte de Claro Enigma também é a dúvida entre ser o animal feroz, audaz, independente como o lobo, ou cordial, amigo e submisso como o cão. Todos os poemas falam de tristeza, melancolia, até que o próprio poeta diz em Cantiga de Enganar: O mundo não vale o mundo, meu bem.

II. Notícias Amorosas

A segunda parte, Notícias Amorosas, traz poemas que têm o amor como tema. Mas não é um amor alegre, é um amor triste. Nos últimos versos do poema Campo de Flores, que encerra essa parte, o poeta diz “Há que amar e calar. Para fora do tempo arrasto meus despojos e estou vivo na luz que baixa e me confunde.”

Entretanto, é preciso ressaltar que já não é mais uma completa treva, e, sim, uma luz baixa.

III - O Menino e os Homens

Os quatro poemas da terceira parte: O Menino e os Homens, é o poeta homenageando homens que de alguma forma ele admirava. Em O Chamado ele fala de Pasárgada, uma homenagem a Manuel Bandeira. Em Aniversário, ele faz uma homenagem aos cinco anos da morte de Mario de Andrade. Em Quintana’s Bar, ao poeta Mario Quintana. Somente no primeiro poema, A um Varão que Acaba de Nascer, não fica claro a quem o poeta está homenageando. Talvez, ao nomeá-lo Pedro, esteja fazendo uma homenagem a todos os homens, já que é famosa a alusão a Pedro como pescador de homens. Essa terceira parte termina como poeta dizendo:

–“vida é paixão – contigo rimos, expectantes, em frente à porta.

Mais uma vez, a caminhada continua, das trevas, vem uma luz baixa e agora, uma expectativa.

IV. Selo de Minas

Já a quarta parte: Selo de Minas, como o próprio nome diz, são poemas que evocam Minas Gerais. Um vai falar de Ouro Preto, outro de Mariana, Vila Rica, Itabira, que foi onde Drummond nasceu, e assim por diante. Nos últimos versos do poema Os Bens e o Sangue, a terra ao falar ao poeta diz que ela é o seu adubo. Ressaltando mais uma vez a influência que o seu estado de origem tem na obra do escritor.

V. Os Lábios Cerrados

A quinta e penúltima parte, que leva o nome de Os Lábios Cerrados, é a mais introspectiva e autobiográfica. Os lábios cerrados estão cerrados, lábios mudos, lábios que não falam. São poemas que falam de mortos, de ausentes, muitos já esquecidos, do pai do escritor e da sua família. No final do longo poema A Mesa, há novamente uma referência à cor e a luz. Diz o poeta: “... que branca mais que branca tarja de cabelos brancos retira a cor das laranjas, anula o pó do café, cassa o brilho aos serafins? Quem é toda luz e é branca?

VI. A Máquina do Mundo

Por fim, a quinta e última parte chamada de A máquina do Mundo é composta apenas de dois poemas, o próprio A Máquina do Mundo, eleito o melhor poema brasileiro do século XX pelo jornal A Folha de São Paulo e uma clara referência aos Lusíadas de Camões, onde no canto X, Camões fala da Máquina do Mundo capaz de esclarecer todos os enigmas. Essa máquina se abre e oferece todos os esclarecimentos, mas o poeta desdenha dessa oferta. Entretanto, ao final, parece se arrepender porque avalia o que perdeu. Finalmente, o poema Relógio do Rosário, que encerra o livro, fala da dor individual e do mundo, dor de tudo e de todos e termina, como eu disse antes, com a volta da cor.

Mas na dourada praça do Rosário,

Foi-se, no som, a sombra. O columbário

Já cinza se concentra, pó de tumbas,

Já se permite azul, risco de pombas.

O columbário, que tanto pode ser um pombal como o lugar que guarda as cinzas dos mortos, se transforma de um local de cinzas para um local de pombas. Perde a cor cinza para se permitir o azul e, por fim, as pombas, brancas, símbolo da paz. É como se o escritor tivesse partido de um estado de espírito muito negro no início do livro e tivesse, finalmente, encontrado a paz.

8) ANGÚSTIA - GRACILIANO RAMOS

http://leitorcabuloso.com.br/2014/08/resenha-angustia-graciliano-ramos/

Angústia é o substantivo que define a vida de Luís da Silva. Funcionário público, vive de aluguel, tem uma empregada e reclama diariamente da vida. Na verdade ele reclama de tudo. Ele não consegue ver mais alegria em nada do que faz, é aquele tipo que empurra a vida e vive por viver. Apesar de inteligente, ele sempre acha ruim de não ter nada e não ter conquistado nada, mas o incrível é que você nunca o vê lutando para conseguir alguma coisa. Parece que tudo o que ele faz é somente para “passar o tempo” e não ter de pensar em si mesmo. Vive seguindo uma rotina, se culpa muito por isso e acaba sendo um homem angustiado (olha o título de novo).

Então lhe aparece uma vizinha , Marina, com quem Luís passa a ter certo interesse. Só que até nisso ele é desgraçado porque Marina é o tipo de mulher superficial que só pensa em dinheiro. Dá uns “amassos” em Luís e ele insiste para que se casem, compra roupas e joias para ela, porém ela se interessa mesmo por Julião Tavares, homem que tem boa lábia, conversa sobre tudo e é sócio em uma empresa. Luís simplesmente odeia Julião e você acaba percebendo que uma parte é de inveja e outra, a maior, é porque o homem é chato mesmo. No começo ele parece lidar bem com a “traição” de Marina, mas vai definhando gradativamente.

Passou a beber com frequência e cada vez mais têm ideias loucas que Marina irá voltar para ele e pior, pensa que se Julião estiver morto ela volta com certeza. Até que Julião Tavares some da casa ao lado e Marina aparece grávida. Isso é o ápice da coisa toda, Luís se torna completamente paranoico, passa a seguir Marina e Julião temendo que os dois voltem a se encontrar. A grande raiva de Luís é que nem Marina nem a mãe culpam o homem pela gravidez, culpam o destino, a má sorte e ele então decide que Julião tem de morrer.

Foi um misto de emoções ler esse livro. Muitas vezes você sentia raiva, mas em outras se identificava com os pensamentos de Luís. Você pode até rir lendo Angústia. Não sei vocês, mas eu não me sinto mais inteligente após terminar a leitura de um clássico e sim o contrário, me sinto meio estúpida de ainda não conseguir entender certas coisas e só assim me dar conta de outras.

9) CAMPOS GERAL, JOÃO GUIMARÃES ROSA

CAMPOS GERAL – https://www.algosobre.com.br/resumos-literarios/campo-geral.html

RESUMO: A narrativa de Campos Geral começa quando Miguilim é levado por Tio Terez para ser crismado. O menino tem 8 anos e nunca saiu do Mutum, afora pequenas mudanças que fez quando ainda muito pequeno. Desta viagem, a lembrança mais nítida será de um comentário ouvido sobre a beleza de Mutum. Profundamente impressionado com esta referência, Miguilim não vê a hora de contá-la à mãe, Nhanina, sempre triste de ali viver. Ao chegar em casa, vai tão aflito procurar a mãe, que acaba desgostando a seu pai e recebe castigo: não o acompanha juntamente com os irmãos na pescaria de domingo. Em contrapartida, aprende a fazer arapuca para pegar passarinho com o Tio Terez.

A rotina da casa inclui os brinquedos de Miguilim com seus irmãos por ordem de idade, Drelina, Dito, Chica, Tomezinho. Há também outro irmão, Liovaldo, mais velho que Miguilim, o único que não mora com a família. Na cozinha, a mãe e as empregadas, Rosa, Maria Pretinha e Mãitina, preparam as comidas. Nas cercanias, vivem os diversos cachorros da família. Havia uma cadela, a Pingo-de-Ouro, a que Miguilim era especialmente apegado, mas que foi dada pelo pai a tropeiros de pernoite no Mutum. A descoberta de que Nhanina e Tio Terez tinham um caso causa grande confusão. O pai bate na mãe, Miguilim tenta interrompê-lo e termina sendo castigado . Vovó Izidra, sua tia-avó, é quem toma a iniciativa de expulsar Tio Terez de casa, xingando-o de Caim. Nesta noite, uma grande tempestade faz Dito e Miguilim conversarem sobre o medo da morte. Para acalmar a todos, Vovó Izidra puxa uma reza. No dia seguinte, Seo Deográcias, entendido de remédios, foi com o filho, Patori, visitá-los. Queria, na verdade, pegar emprestado alguns mantimentos e cobrar um dinheiro, mas aproveita para aconselhar sobre a saúde de Miguilim, que a todos parecia frágil. Aos poucos, Miguilim começa a cismar que vai morrer. Faz uma promessa a Deus: se ele não morresse nos próximos dias, não morreria mais. Enquanto isso, se compromete a rezar uma novena. Contudo, os dias passam, ele não principia a novena e vai ficando cada vez mais ansioso. Começa então a rever vários momentos e se recorda da habilidade de Dito em se comportar de modo que não desagrade o Pai, da curiosidade que Patori lhe despertou sobre sexo, do aconchego que sentia em criança de ficar nos braços de Mãitina. No derradeiro dia, nem da cama ele quer sair. E até Seo Aristeu, outro curandeiro da região, vir vê-lo, Miguilim não pode acreditar em outra coisa que não fosse a morte chegando. Temia estar tísico, mas Seo Aristeu logo foi explicando no seu jeito alegre de falar que essa doença não dava por aquela parte dos Gerais. O pai então toma uma decisão: a partir do próximo dia, Miguilim irá levar-lhe comida na roça onde trabalhava. O menino fica muito feliz de se sentir útil. Quando foi cumprir a tarefa pela primeira vez, Tio Terez aparece no caminho e pede ao sobrinho um favor: entregar um bilhete a Nhanina. O pedaço de papel no bolso põe Miguilim num grande embate interior: o que seria mais certo fazer? Sem contar o motivo, consulta todos sobre o que é certo ou errado. Como sempre, é com Dito que Miguilim vai se orientar, tentando pedir explicações que o irmão, apesar de menor, parece sempre conhecer. Depois de uma tarde e de uma noite de dúvidas, Miguilim só resolve em frente ao Tio Terez o que fazer: diz a verdade e devolve o bilhete. O Tio então se dá conta em que horrível posição colocara o sobrinho e se desculpa. Ainda atordoado, Miguilim deixa que os macacos roubem a comida do tabuleiro. O pai se diverte com a história, dando a sensação em Miguilim de ser amado. Com a chegada de Luisaltino, novo parceiro de trabalho de Nhô Bero, vem a notícia de que Patori assassinou um rapaz e está foragido. Patori acaba morrendo de fome, e Nhô Bero larga tudo para prestar solidariedade a Seo Deográcias, que se desesperava com a perda do filho. Mas o que mais agradou a Miguilim foi que Luisaltino traz consigo um papagaio, o Papaco-o-Paco. Uma manhã, depois de ter ido espiar uma coruja, Dito pisa num caco de pote e corta o pé. O tétano toma conta do menino e, em poucos dias, ele morre . Miguilim se desespera e esse intenso sofrimento parece não passar nunca. Mãitina tem uma ideia que o ajuda a enfrentar a dor: juntou roupas e brinquedos de Dito e alguns guardados seus e enterrou tudo no quintal, marcando depois o lugar com pedrinhas lavadas do rio. Para tirá-lo dessa tristeza, Nhô Bero resolve pô-lo para trabalhar: começa a debulhar milho, capinar a horta, buscar cavalo no pasto. Miguilim não acha ruim trabalhar, mas não vê alegria em nada. Para complicar, dias depois chegam Tio Osmundo e o irmão Liovaldo.

O Tio não simpatiza com Miguilim e Liovaldo começa a provocá-lo. Até que Liovaldo faz pequenas maldades com o menino Grivo e Miguilim, indignado, acaba partindo para a briga. Nhô Bero fica tão furioso que dá uma sova de correia no menino. Miguilim sente tanto ódio do pai que nem chora: só pensa em crescer e matá-lo. Nhanina, para abrandar a situação, manda Miguilim se hospedar na casa do vaqueiro Saluz por três dias. Na volta, Miguilim não pede a bênção ao pai, que então se vinga, soltando os passarinhos de Miguilim e despedaçando as gaiolas. Miguilim por sua vez extravasa sua raiva, quebrando os próprios brinquedos. Quando o Tio e o irmão vão embora, Miguilim pela primeira vez se alegra com a possibilidade de um dia ser ele a partir. Com esta ideia na cabeça começa a se reanimar, a repassar tudo que aprendera com Dito, mas termina por adoecer, o que desespera Nhô Bero. Durante a sua convalescença, uma tragédia se precipita: Nhô Bero descobre que Luisaltino o traía com sua mulher; mata o ajudante e, em seguida, se suicida. Seo Aristeu tenta animar Miguilim. Nhanina conta sua intenção de casar com Tio Terez, que a esta altura já está de volta. Miguilim, ainda abatido com a doença e com todos os acontecimentos, vê chegar dois homens a cavalo. Um deles logo repara no jeito de Miguilim olhar, com os olhos apertados. O grupo vai para a casa e Miguilim é examinado até que o homem, doutor José Lourenço, do Curvelo, chega a um diagnóstico: vista curta. Tira os próprios óculos e empresta ao menino, que nem pode acreditar em tudo que se revelou a sua frente. O doutor se oferece para levar Miguilim para a cidade: providenciaria os óculos e poria Miguilim para estudar. Miguilim aceita o convite e se prepara para ir embora na manhã seguinte. Mas, antes de partir, pede de novo os óculos. Quer levar consigo uma imagem nítida da família e do Mutum, que, agora ele via, era realmente bonito.


10) ROMANCEIRO DA INCONFIDÊNCIA – CECÍLIA MEIRELES

https://www.passeiweb.com/estudos/livros/romanceiro_da_inconfidencia/

A obra Romanceiro da Inconfidência, de Cecília Meireles, foi publicada em 1953, e escrita na década de 1940 quando sua autora, então jornalista, chegou a Ouro Preto, com a finalidade de documentar os eventos de uma Semana Santa. Assim, envolvida pela “voz irreprimível dos fantasmas”, conforme dissera, passou a reescrever, de forma poética, os episódios marcantes da Inconfidência Mineira, destacando, evidentemente, o martírio de Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, personagem principal da obra.

O Romanceiro é formado por um conjunto de romances , poemas curtos de caráter narrativo e/ou lírico, destinados ao canto e transmitidos oralmente por trovadores e que permaneceram na memória coletiva popular. Expressão poética específica do passado ibérico: saída técnica para dar maior autenticidade e força evocativa ao episódio histórico.

Seus autores, em regra geral, ficaram anônimos. Os romanceiros eram conhecidos na Espanha e em Portugal desde o século XV e tinham várias funções: informação, diversão, estímulo agrícola, doutrinamento político e religioso.

A temática remete o leitor à época da Inconfidência Mineira (1789), daí o caráter nacionalista e histórico da obra. Associando verdade histórica, tradições e lendas, e utilizando a técnica ibérica dos romances populares, a poetisa recria a atmosfera da Vila Rica (hoje Ouro Preto) dos Inconfidentes. A mineração, as rivalidades e contendas, os altos impostos cobrados pela Coroa, a conscientização de alguns intelectuais e letrados, os ideais de liberdade, as Academias e as tendências arcádicas renascem, ao mesmo tempo em que se faz a defesa dos oprimidos. A autora conta a história da tentativa de libertação do Brasil ocorrida em Minas Gerais no século XVIII. O título obedece a uma terminologia própria dos romances espanhóis medievais – época em que a palavra “romance” aplicava-se também a obras em verso.

No Romanceiro, o elemento histórico é bastante forte, como já citado. Contudo, o que a autora tenta recuperar é menos os fatos históricos em si, e mais o ambiente e as sensações envolvidas na revolta. Assim, cada elemento histórico adquire um valor simbólico: a busca do ouro representa a ambição e a cobiça; a conspiração esconde a esperança e o fracasso; as prisões dos envolvidos são focalizadas como situações de medo; o degredo é visto como momento de perda e saudade; e as punições finais mostram todo o desengano da derrota política.

Portanto, não há essa preocupação de focalizar essencialmente o fato histórico que envolveu os inconfidentes, a obra vai muito além do próprio tempo que tematiza. A poetisa não se afastou do seu conhecido estilo, composto de atmosferas fugidias e imprecisas, e preocupada com o registro das sensações, com o clima predominante no momento da revolta, de incertezas e de medo. É o que está além da realidade, invisível e, quase sempre, intransponível para aqueles que não são dotados de sensibilidade poética.

A obra caracteriza-se como uma obra lírica, de reflexão, mas com um contexto épico, narrativo, firmemente apoiado no fato histórico. Em 1789, inspirados pelas ideias iluministas europeias e pela independência dos Estados Unidos (1776), alguns homens tentam organizar um movimento para libertar a colônia brasileira de sua metrópole portuguesa. A colônia sofria pesada carga tributária sobre o ouro extraído das Minas Gerais deixava os que viviam dessa renda cada vez mais descontentes. Assim, donos de minas, profissionais liberais – entre os quais alguns poetas árcades – e outros começaram a conspirar contra Portugal. Contudo, o movimento é delatado (Joaquim Silvério dos Reis e outros) e os envolvidos, presos. Alguns são condenados ao exílio (Moçambique e Angola) e o único a ser executado, na forca, e depois esquartejado, é Tiradentes, em 21 de abril de 1792.


11) NOVE NOITES - BERNARDO CARVALHO

https://www.passeiweb.com/estudos/livros/nove_noites/


Sexto livro de Bernardo Carvalho, narra uma investigação sobre a misteriosa morte e um antropólogo americano, BuellQuain, que aos 27 anos, em 1939, se suicida após uma estada em uma aldeia indígena situada no Tocantins, no Brasil, quando subitamente regressava à civilização. No meio da floresta, Quain, sem motivos aparentes, retalhou-se e enforcou-se na frente de dois índios horrorizados que o acompanhavam na volta para a cidade da Carolina. Este é o ponto de partida da narrativa de Bernardo Carvalho: um caso trágico, senão mórbido, perdido nos anos e na memória. Bernardo decidiu, a partir de tão poucas informações, tecer um romance utilizando a história fatídica de BuellQuain como base, entrelaçando história e ficção, texto jornalístico e um estranho narrador que entrecorta todo o livro.

O narrador / confessor do antropólogo responde pela parte ficcional de Nove Noites, ao passo que o próprio Bernardo Carvalho encarna e responde pelo lado jornalístico, do levantamento de dados que indiquem os reais motivos que levaram BuellQuain a dar cabo de sua existência. Não se sabe quem investiga, até porque ninguém nunca lhe perguntou a razão da sua curiosidade. Há a desculpa de querer escrever um livro, que vai adiantando para não levantar suspeitas. A mistura que o autor tenta levar a termo é extremamente interessante como recurso literário: insere fotos e personagens da década de 1930 na história, como pessoas reais ou imaginárias, o leitor nunca sabe exatamente onde está pisando. Pela sua mão somos guiados por entrevistas com pessoas que privaram com Quain, arquivos públicos, e memórias deixadas em cartas, escritas pelo suicida antes de morrer, e por um seu amigo, com quem partilhou nove noites de conversas e revelações. São vários mistérios que se interligam, e adensam a narrativa, em que o leitor partilha a claustrofobia e evasão de identidade das personagens.

Da mesma forma, Bernardo Carvalho abre um campo de especulação na mente do leitor, não somente sobre os motivos que ocasionaram a morte de BuellQuain, mas principalmente sobre o significado e as consequências da transferência de um jovem norte-americano para o interior das florestas brasileiras. O autor junta habilmente a realidade e a ficção, o romance e a investigação que desenvolveu sobre os índios e sobre o antropólogo. Como nos diz o próprio autor nos agradecimentos é uma combinação de memória e imaginação, – como todo o romance, em maior ou menor grau, de forma mais ou menos direta. Em outras palavras, Nove Noites é um excelente exemplo do nem sempre salutar choque cultural.

Nove Noites desconstrói as estratégias da narrativa realista e propõe um jogo com o real, jogo no qual, além de desconstruir as estratégias da narrativa realista, este romance desafia os modos nos quais a cultura de massas “consome” realidade. A história de Quain é verdadeira. O autor soube dela por um artigo no “Jornal de Resenhas”, da “Folha de S. Paulo”, escrito pela antropóloga Mariza Corrêa, em que o caso era citado de passagem. A história do escritor, ao menos em parte, também procede: na orelha do livro há uma foto de Carvalho, aos seis anos, ao lado de um índio do Xingu, região onde seu pai de fato fora proprietário de terras. O resto permanece em suspense – e nem o próprio autor parece disposto a separar fato de ficção.

12) SERMÕES - PADRE ANTONIO VIEIRA

https://www.todamateria.com.br/sermao-da-sexagesima/#:~:text=Resumo%20da%20Obra&text=Dessa%20forma%2C%20Vieira%20utiliza%20diversas,a%20inefic%C3%A1cia%20de%20seus%20discursos.

Sermão da Sexagésima

O Sermão da Sexagésima é um dos mais conhecidos “Sermões” do escritor e orador barroco Padre Antônio Vieira.

A obra foi escrita em prosa no ano de 1655 e sua temática está pautada na religiosidade. O Sermão da Sexagésima foi proferido na Capela Real de Lisboa, em 1655.

Resumo da Obra

De temática religiosa, o Sermão da Sexagésima é uma prosa sacra que tem o intuito de convencer as pessoas a se converterem à religião católica.

Dessa forma, Vieira utiliza diversas passagens da Bíblia para escrever os sermões. Menciona temas como Deus, os homens, o pregador e o evangelho.

Assim, ele tenta mostrar que a culpa é do pregador e da veracidade de sua doutrina. Ele critica, portanto, outros pregadores e a ineficácia de seus discursos.

Em resumo, o Sermão da Sexagésima foca na própria forma de fazer sermões. O Padre usa da metalinguagem para apresentar sua ideia central: pregar é semear.

Análise da Obra

O Sermão da Sexagésima está dividido em 10 partes. Antônio Vieira foi um dos mais destacados escritores de estilo literário conceptista.

Ou seja, ele tinha uma grande preocupação com o “jogo de ideias”. Assim, com uma forte racionalidade (raciocínio lógico), a obra tem o intuito de convencer o leitor.

A partir de diversas analogias ele usa da argumentação para responder as perguntas que ele mesmo faz.

É notório o uso de figuras de linguagem as quais oferecem maior expressividade ao texto. As mais utilizadas são metáfora, comparação, hipérbole, etc. Vale lembrar que com a Reforma Protestante a Igreja católica perdia cada vez mais seus fiéis. Dessa maneira, Vieira tentou incutir na mente das pessoas os dogmas da religião católica.

Trechos da Obra

Para conhecer melhor a linguagem utilizada no Sermão da Sexagésima, segue abaixo alguns trechos.

I

E se quisesse Deus que este tão ilustre e tão numeroso auditório saísse hoje tão desenganado da pregação, como vem enganado com o pregador! Ouçamos o Evangelho, e ouçamo-lo todo, que todo é do caso que me levou e trouxe de tão longe.

II

Semen est verbum Dei.

O trigo que semeou o pregador evangélico, diz Cristo que é a palavra de Deus. Os espinhos, as pedras, o caminho e a terra boa em que o trigo caiu, são os diversos corações dos homens. Os espinhos são os corações embaraçados com cuidados, com riquezas, com delícias; e nestes afoga-se a palavra de Deus. As pedras são os corações duros e obstinados; e nestes seca-se a palavra de Deus, e se nasce, não cria raízes. Os caminhos são os corações inquietos e perturbados com a passagem e tropel das coisas do Mundo, umas que vão, outras que vêm, outras que atravessam, e todas passam; e nestes é pisada a palavra de Deus, porque a desatendem ou a desprezam. Finalmente, a terra boa são os corações bons ou os homens de bom coração; e nestes prende e frutifica a palavra divina, com tanta fecundidade e abundância, que se colhe cento por um: Et fructum fecit centuplum.

III

Fazer pouco fruto a palavra de Deus no Mundo, pode proceder de um de três princípios: ou da parte do pregador, ou da parte do ouvinte, ou da parte de Deus. Para uma alma se converter por meio de um sermão, há-de haver três concursos: há-de concorrer o pregador com a doutrina, persuadindo; há-de concorrer o ouvinte com o entendimento, percebendo; há-de concorrer Deus com a graça, alumiando.

IV

Mas como em um pregador há tantas qualidades, e em uma pregação tantas leis, e os pregadores podem ser culpados em todas, em qual consistirá esta culpa? - No pregador podem-se considerar cinco circunstâncias: a pessoa, a ciência, a matéria, o estilo, a voz. A pessoa que é, e ciência que tem, a matéria que trata, o estilo que segue, a voz com que fala. Todas estas circunstâncias temos no Evangelho.

V

Será porventura o estilo que hoje se usa nos púlpitos? Um estilo tão empeçado, um estilo tão dificultoso, um estilo tão afectado, um estilo tão encontrado a toda a arte e a toda a natureza? Boa razão é também esta. O estilo há-de ser muito fácil e muito natural. Por isso Cristo comparou o pregar ao semear: Exiit, qui seminat, seminare.

VI

Será pela matéria ou matérias que tomam os pregadores? Usa-se hoje o modo que chamam de apostilar o Evangelho, em que tomam muitas matérias, levantam muitos assuntos e quem levanta muita caça e não segue nenhuma não é muito que se recolha com as mãos vazias. Boa razão é também esta. O sermão há-de ter um só assunto e uma só matéria. Por isso Cristo disse que o lavrador do Evangelho não semeará muitos géneros de sementes, senão uma só: Exiit, qui seminat, seminare semen. Semeou uma semente só, e não muitas, porque o sermão há-de ter uma só matéria, e não muitas matérias.

VII

Será porventura a falta de ciência que há em muitos pregadores? Muitos pregadores há que vivem do que não colheram e semeiam o que não trabalharam. Depois da sentença de Adão, a terra não costuma dar fruto, senão a quem come o seu pão com o suor do seu rosto. Boa razão parece também esta. O pregador há-de pregar o seu, e não o alheio. Por isso diz Cristo que semeou o lavrador do Evangelho o trigo seu: Semen suum. Semeou o seu, e não o alheio, porque o alheio e, o furtado não é bom para semear, ainda que o furto seja de ciência.

VIII

Será finalmente a causa, que tanto há buscamos, a voz com que hoje falam os pregadores? Antigamente pregavam bradando, hoje pregam conversando. Antigamente a primeira parte do pregador era boa voz e bom peito. E verdadeiramente, como o mundo se governa tanto pelos sentidos, podem às vezes mais os brados que a razão. Boa era também esta, mas não a podemos provar com o semeador, porque já dissemos que não era ofício de boca. Porém o que nos negou o Evangelho no semeador metafórico, nos deu no semeador verdadeiro, que é Cristo.

IX

As palavras que tomei por tema o dizem. Semen est verbum Dei. Sabeis, Cristãos, a causa por que se faz hoje tão pouco fruto com tantas pregações? É porque as palavras dos pregadores são palavras, mas não são palavras de Deus. Falo do que ordinariamente se ouve. A palavra de Deus (como diria) é tão poderosa e tão eficaz, que não só na boa terra faz fruto, mas até nas pedras e nos espinhos nasce. Mas se as palavras dos pregadores não são palavras de Deus, que muito que não tenham a eficácia e os efeitos da palavra de Deus?

X

Dir-me-eis o que a mim me dizem, e o que já tenho experimentado, que, se pregamos assim, zombam de nós os ouvintes, e não gostam de ouvir. Oh, boa razão para um servo de Jesus Cristo! Zombem e não gostem embora, e façamos nós nosso ofício! A doutrina de que eles zombam, a doutrina que eles desestimam, essa é a que lhes devemos pregar, e por isso mesmo, porque é mais proveitosa e a que mais hão mister.


0 visualização

© 2023 por EU E A DISLEXIA.