• Maria Silvana Alves

DICAS DE LIVROS PARA VESTIBULAR - PARTE 1

Os vestibulandos já sabem que a maioria das universidades cobram a leitura de algumas obras literárias dos principais autores das literaturas brasileira e portuguesa. Alguns alunos iniciaram a leitura dessas obras já no primeiro ano do ensino médio. O ideal seria que os livros indicados fossem lidos ao longo de cada ano começando pelo 9º ano, para que essa atividade não acumulasse com o conteúdo que será necessário revisar às véspera das provas e para que, quando se aproximassem os vestibulares, fossem feitas apenas revisões para retomada do que já foi estudado.

Fiz uma pesquisa sobre as principais obras que caem nas provas dos vestibulares e organizei resenhas de cada uma delas para vocês que já leram poderem revisar e para os que ainda não leram, aproveitarem esse período de quarentena e colocarem a leitura em dia. Em cada obra, segue o link da referência da resenha.

As 7 primeiras indicações, são do blog Quero Bolsa (post de 21/05/2019). Link para mais detalhes sobre esta publicação:

https://querobolsa.com.br/revista/7-livros-mais-cobrados-nos-vestibulares-de-2020

1. SAGARANA - GUIMARÃES ROSA

https://felipepimenta.com/2016/10/20/resenha-sagarana-de-joao-guimaraes-rosa/

Sagarana é o romance inaugural de Guimarães Rosa publicado em 1946, dez anos antes de Grande Sertão: Veredas. Nos diversos contos que fazem parte do livro, Rosa reproduz a linguagem do homem simples do sertão brasileiro, mas com a característica incomum em escritores brasileiros de tentar alcançar o universal, ou seja, de falar de temas presentes no espírito da humanidade em qualquer canto do mundo.

Típico de Rosa é a antroporfomização dos animais em Sagarana, pois eles estão sempre presentes no cotidiano e nos dramas pessoais dos personagens das estórias. O espaço físico do sertão dá grande vivacidade e emoção à movimentação dos personagens. Em tudo há uma integração, e o resultado é muito belo. Sabemos da tendência supersticiosa que Rosa possuía, que também é comum no homem do sertão. Essa característica iria acompanhá-lo por toda a vida e estaria presente também em seus livros posteriores à Sagarana. O sertão é palco de duelos incríveis e personagens misteriosos, mas também de magias, encantamentos, crendices e do espiritismo.

A linguagem utilizada por Guimarães Rosa em Sagarana ainda não é tão complexa e desafiadora como será em Grande Sertão: Veredas, mas apesar de dificuldade para quem o lê pela primeira vez, não há como separar sua obra do falar do sertanejo e suas crenças, refletidas em cantos populares, onomatopeias e neologismos que Rosa introduz em todos os momentos nas estórias.

Sem dúvida há um caráter moralizante em Sagarana. Também é bom que se perceba que o homem do sertão muitas das vezes é violento, e o sentimento da honra medieval se faz presente até hoje; na obra de Rosa é algo fundamental para explicar os bandos de justiceiros, os pactos, as vinganças, as traições, etc.

Conforme havia mencionado, Rosa é um dos poucos escritores brasileiros que alcançam um significado universal em seus livros. É muito fácil na maior parte das vezes escrever um livro abordando sexo, sensualidade, brigas políticas datadas, ou mesmo situar o enredo captando apenas aquilo que é local e imediato, sem haja nisso qualquer interesse para homens e mulheres de outros países e épocas. Rosa poderia muito bem ter ganhado o prêmio Nobel, se ao menos não tivesse morrido prematuramente. Todo aquele ambiente de magia, meio mítico meio real de Sagarana e também de Grande Sertão, é bastante atraente e fascinante. Os contos São Marcos e A Hora e a Vez de Augusto Matraga são exemplos disso.

A psicologia do homem do sertão é uma mistura de catolicismo, paganismo e espiritismo. Na realidade o brasileiro é assim; violência e o caráter passional também estão presentes. O grande mérito de Rosa é colocar essas características em um plano mais elevado, que poderiam transformar-se em apenas novelas para consumo imediato, ao estilo de novelas globais. Por ser supersticioso, mas também com alguma religiosidade, Rosa foi capaz de abordar em suas estórias o arrependimento, aspectos singelos da vida, alguma moral, sendo que essas coisas estão ausentes em outros autores de nosso país. Tudo isso garantiu Sagarana entre as grandes obras de nossa literatura.

2. VIDAS SECAS - GRACILIANO RAMOS

https://atraidospelaleitura.wordpress.com/2018/06/15/resenha-vidas-secas-graciliano-ramos/

Vidas Secas narra a trajetória de uma família de retirantes no sertão nordestino que na época da seca precisa migrar na esperança de encontrar melhores condições para sobreviver.

Graciliano Ramos é mestre em representar através da sua obra a vida do nordestino com todas as suas mazelas. A condição humana é mostrada de forma bastante realista em Vidas Secas.

A família é composta por Fabiano, Sinhá Vitória, Menino mais velho e Menino mais novo. Tem ainda a cachorra Baleia que é considerada um integrante da família.

Fabiano é um homem rude, de poucas palavras, sem instrução alguma. Com isso, se sente inferior aos demais, é um homem submisso que não consegue ter uma opinião própria. Trabalha como vaqueiro e sempre se sente enganado na hora de receber o pagamento.

Sinhá Vitória é uma mulher forte e trabalhadora que cuida da casa, dos filhos e sempre sonha com um futuro melhor. Seu sonho de consumo é comprar uma cama de couro, igual a de Seu Tomás da Bolandeira.

O menino mais velho sentiu vontade de aprender sobre as palavras e certo dia ao ouvir a palavra “inferno”, ficou curioso para saber o seu significado. No entanto, ao questionar Sinhá Vitória, não recebeu uma resposta satisfatória e quando decidiu perguntar a Fabiano, acabou ficando sem resposta.

O desejo do Menino mais novo era apenas se tornar vaqueiro igual ao pai e sentia orgulho quando via Fabiano vestido com as roupas de vaqueiro.

A cachorra Baleia é considerada um membro da família. Ela protagoniza um dos momentos mais emblemáticos do livro. Com características humanas, Baleia pensa e sonha.

Através de Vidas Secas, Graciliano Ramos traz uma forte crítica social, direcionada ao governo, aos ricos fazendeiros e aos militares, etc. O que pode ser percebido diante dos acontecimentos vivenciados por Fabiano e sua família em diversas passagens do livro.

3. A HORA DA ESTRELA - CLARICE LISPECTOR

https://www.acrobatadasletras.com.br/2014/01/resenha-hora-da-estrela-de-clarice.html#:~:text=O%20livro%20conta%20a%20hist%C3%B3ria,Rio%20ap%C3%B3s%20perder%20sua%20tia.&text=E%20%C3%A9%20depois%20de%20receber,sua%20hora%20da%20estrela%20chegar.


"O fato é um ato? Juro que este livro é feito sem palavras. É uma fotografia muda. Este livro é um silêncio. Este livro é uma pergunta." (pg 17)

O livro conta a história da nordestina Macabéa, mulher feia e alienada, que se muda para o Rio após perder sua tia. Ela trabalha como datilógrafa e passa suas horas livres ouvindo a Rádio Relógio. Logo ela se apaixona por Olímpico de Jesus, um metalúrgico nordestino, que a trai com sua colega de trabalho. E é depois de receber um conselho da própria 'colega' que Macabéa resolve ir a uma cartomante, e em pouco tempo vai ver sua hora da estrela chegar.

A hora da estrela é um livro muito pequeno, um dos menores da minha estante, com pouco mais que 80 páginas. A história é contada por um narrador-personagem, Rodrigo S.M., que até mesmo se identifica com a protagonista Macabéa. Há momentos em que ele a ama, há momentos em que ele é contra a mulher, o que faz com que as características da própria Clarice Lispector fiquem mais evidentes.

Nosso narrador, Rodrigo S.M., retarda bastante o início da narração da vida de Macabéa, para desenvolver um autoquestionamento. Autoquestionamento acerca de várias coisas, principalmente sobre a vida e sobre o 'escrever'.


"Que ninguém se engane, só consigo a simplicidade através de muito trabalho.

Enquanto eu tiver perguntas e não houver resposta continuarei a escrever." (pg 11)

"Mas que ao escrever - que o nome real seja dado às coisas. Cada coisa é uma palavra. E quando não se a tem, invente-se-a. Esse vosso Deus que nos mandou inventar.

Por que escrevo? Antes de tudo porque captei o espírito da língua e assim às vezes a forma é que faz conteúdo." (pg 18)

Macabéa era incompetente. Incompetente para a vida. Tinha saído do Alagoas depois de perder seu único elo com o mundo, sua tia, e mudou-se para Rio, onde foi morar com as quatro Marias em uma espécie de pensão miserável. Já na nova cidade começou a trabalhar como datilógrafa, sempre muito orgulhosa da profissão que a tia havia lhe proporcionado. Enquanto gastava suas horas livres ouvindo a rádio relógio, esperava pelo seu salário para que pudesse então ir ao cinema e tomar coca-cola.

A protagonista é um grande exemplo da miséria humana. Passava seus dias sem nada, era uma inútil, mal sabia que era uma peça descartável. Não tinha nem consciência da sua própria existência, era passiva diante de tudo, se conformava com a vida que tinha. Aliás, ela até mesmo pensava que era feliz. Era uma alienada, um verdadeiro 'cabelo na sopa'. "Já que sou, o jeito é ser." (pg 34) ; "Ela acreditava em anjo e, porque acreditava, eles existiam." (pg 40)

"Maca, porém, jamais disse frases, em primeiro lugar por ser de parca palavra. E acontece que não tinha consciência de si e não reclamava de nada, até pensava que era feliz. Não se tratava de uma idiota, mas tinha a felicidade dos idiotas. E também não prestava atenção em si mesma: ela não sabia." (pg 69)

Então ela conhece Olímpico de Jesus, nordestino como ela, que trabalhava como metalúrgico. Entretanto, ele era muito diferente dela. Gostava de fingir que sabia de tudo, era ambicioso com relação ao seu futuro. Não demora muito para que o namorado da coitada a traia com a sua colega de trabalho, Glória.

Macabéa ficou desesperada, embora não aparentasse. Foi quando a própria Glória sugeriu que ela fosse a uma cartomante. A mulher prevê um futuro radiante para a nossa pobre protagonista, que finalmente percebe que existe um futuro. "Ela se abraçava a si mesma com vontade do doce nada. Era maldita e não sabia. Agarrava-se a um fiapo de consciência e repetia mentalmente sem cessar: eu sou, eu sou, eu sou." (pg 84)

A mais surpreendente obra de Clarice Lispector nos faz refletir acerca do desamparo ao qual estamos todos suscetíveis. Aqui, o escrever é uma necessidade, onde desenvolvem-se reflexões sobre a vida e sobre a morte, sobre a palavra.

O leitor é raptado pela leitura. Desde a dedicatória que Clarice escreveu no início do livro, já percebemos que o que vai se suceder será grande. E é.

Mesmo criando um falso narrador, motivada pelo desejo de desaparecimento, Clarice não conseguiu concretizar sua saída discreta pela porta dos fundos. Em seu último livro publicado em vida fica provado que ela era realmente a mestra de sua literatura.

4. MAYOMBE – PEPETELA

https://guiadoestudante.abril.com.br/estudo/mayombe-analise-da-obra-de-pepetela/

A obra é uma reflexão, envolta pelos ideais socialistas, sobre a dura realidade da sociedade angolana, sobre as perspectivas do movimento de libertação e da população local em relação aos princípios conflitantes do MPLA.

Cada personagem luta a seu modo por seus ideais de libertação. Em meio a isso, vimos uma Angola despedaçada e sem unidade. O livro procura retratar esse desfacelamento e critica as lutas de grupos que não se unem por um ideal comum.

A estrutura narrativa polifônica (várias vozes), que retrata os acontecimentos sob o ponto de vista de várias personagens em primeira pessoa, revela o profundo respeito a cada homem na sua individualidade e o desejo do autor de transformar os agentes da revolução em sujeitos da luta.

Durante toda a narrativa, ocorre um mesmo registro linguístico, apesar do abismo existente entre as classes sociais das personagens e as suas origens culturais, o que reforça a ideia de propor a igualdade entre as pessoas. Além disso, há a tentativa de criar um ideal nacionalista que una os diferentes povos da região e o MPLA em oposição ao colonialismo.


5. QUARTO DE DESPEJO: DIÁRIO DE UMA FAVELADA - CAROLINA MARIA DE JESUS

https://www.literalmenteuai.com.br/resenha-quarto-de-despejo-diario-de-uma-favelada-carolina-maria-de-jesus/

Quarto de Despejo – Diário de uma favelada é um dos clássicos mais injustiçados da literatura brasileira. Apesar de ter sido publicado na década de 1960, e aclamado no exterior, por aqui quase ninguém conhece a Carolina ou sequer ouviu falar no seu impactante diário.

A obra já vendeu mais de um milhão de exemplares, sendo traduzido para mais de 14 idiomas. É um dos livros mais difíceis de encontrar nas livrarias. Tive a oportunidade de ler um exemplar já bem gasto, mas não menos importante, da Biblioteca Pública Estadual de Minas Gerais. O livro é um dos mais procurados do acervo.

Contexto: Carolina Maria de Jesus foi uma mineira que saiu muito cedo da cidade de Sacramento no interior de Minas, para tentar uma vida melhor em São Paulo. Fez a viagem toda a pé.

Na capital paulista trabalhou como doméstica, porém após engravidar do primeiro filho teve que ir morar na rua, até ser enviada para o terreno onde formaria a favela do Canindé, uma das maiores de São Paulo. No local que também servia como lixão, Carolina conseguiu tábuas, madeiras, latão, papelão, e sozinha, construiu o seu próprio barraco.

Mulher negra, solteira, favelada, de vida extremamente miserável, Carolina viveu na favela de meados de 1937 até 1960. Amante da literatura, ela se denominava poetisa com muito orgulho, e registrou em diários a rotina implacável da sua vida naquele lugar. Não é uma vivência, é uma sobrevivência, dura, árdua, que choca e dá aquele nó na garganta ao ver a luta de uma mulher para garantir o alimento, e apenas ele, aos seus filhos. É impactante.

Em 1958 os mais de 20 cadernos de Carolina foram descobertos pelo repórter Audálio Dantas (Grupo Folha) que, incumbido de produzir uma reportagem sobre a favela, decidiu publicar a história que Carolina contava, compreendendo a importância do hoje famigerado “lugar de fala”, como ele aponta no prefácio do livro.

“A história da favela que eu buscava estava escrita em uns vinte cadernos encardidos que Carolina guardava em seu barraco. Li, e logo vi: repórter nenhum, escritor nenhum poderia escrever melhor aquela história – a visão de dentro da favela.” (pág.3)

A propósito da publicação do livro, as edições mantiveram os relatos na íntegra, com os erros de português da escritora, aqui também mantidos nas citações.

Desigualdade Social: Em tempos de Betina e seus milhões aos 22 anos, essa história nos traz de volta a realidade e escancara a vida atual de cerca 15,2 milhões de brasileiros que vivem, até hoje, abaixo da linha da pobreza, ou seja, nas mesmas ou em condições até piores que as relatadas por Carolina em seu diário. Os dados são do IBGE divulgados no final de 2018.

Muito mais do que ter empatia pelo próximo, é compreender que quase 70 anos separam os relatos de Carolina ao hoje, e infelizmente pouco foi feito para mudar essa realidade e dar uma vida digna a todos os brasileiros, sem exceção. Essa frase é utópica, entenda que somos privilegiados por simplesmente termos o que comer todos os dias.

“Mas, o pobre não repousa. Não tem privilégio de gosar descanço”. (pág.10)

O diário começa com relatos de 1955 e dão um salto de 3 anos, a partir da página 25. Tão cedo esse avanço, tão logo percebemos que nada muda em sua situação. Carolina é lúcida e tem plena consciência dos efeitos que o seu diário provocará em quem ler. É honesta com o leitor e muito sincera ao descrever e expor os problemas da favela, que aliás, ela odeia veemente.

“O meu sonho era andar bem limpinha, usar roupas de alto preços, residir numa casa confortável, mas não é possível. Eu não estou descontente com a profissão que exerço. Já habituei-me andar suja. Já faz oito anos que cato papel. O desgosto que tenho é residir em favela”. (pág.19)

Sem água encanada ou esgoto. Conforto é zero. A convivência com pulgas e ratos faz parte da normalidade diária.

Uma mulher batalhadora e trabalhadora que começava sua rotina ainda de madrugada, às vezes 4 horas da manhã, para enfrentar a fila para pegar água na bica comunitária. Em seguida partir para catar recicláveis e alimentos descartados no lixo pela população e empresas. São grandes quantidades absurdas carregadas em seu carrinho, nas costas e às vezes na cabeça. Trabalho pesado, que mal dava para Carolina e seus três filhos sobreviverem.

Violência: Nos relatos, ela expõe o constante ciclo de violência a que os moradores eram submetidos, desde violência doméstica (e há muita), a desavenças entre vizinhos, que quase sempre terminavam em morte. Carolina repudia a violência, e é uma das responsáveis por apaziguar as brigas, e chamar a patrulha como era conhecida a polícia da época.

A vizinhança é hostil. Agridem os filhos de Carolina quando ela está ausente. Não se preocupam com a nudez feminina ou masculina, frente às crianças, algo que ela também critica duramente em vários trechos.

Os relatos de abuso e exploração sexual também estão presentes. A vida na favela é sofrida, as festas regadas a pinga terminam em briga e quebra-quebra. Em vários momentos ela externa uma preocupação sincera com futuro das crianças nascidas e criadas ali.

A consciência do convívio dos pequenos diante de tanta miséria, hostilidade, maus comportamentos, bebida alcoólica, compromete um futuro digno daqueles que já nascem sem perspectiva de vida.

Sobrevivência: Se o entorno é hostil, o dia a dia de Carolina e seus três filhos é cruel, nas pouco mais de 160 páginas do diário. Ela precisa mantê-los vivos, educados e com um fio de esperança, mesmo que a menção ao suicídio seja aventada em vários momentos da história. João (11 anos), José Carlos (10 anos) e Vera (5 anos) são a razão de viver de Carolina.

É uma saga pela sobrevivência, que inclui restos de alimentos retirados do lixo e sopa a base de ossos. Há ainda a rara alegria de comer um pedaço de carne. Não há regalias, o que se faz diariamente é pura e simplesmente para se manter vivo.

“Tinha arroz, feijão e repolho e linguiça. Quando eu faço quatro pratos penso que sou alguem. Quando vejo meus filhos comendo arroz e feijão, o alimento que não está ao alcance do favelado, fico sorrindo atoa. Como se eu estivesse assistindo um espetáculo deslumbrante.” (pág.44).

E nunca é suficiente. Carolina trabalha todos os dias, mais de 15 horas, contudo o dinheiro nunca dá pra nada. É como se a recompensa não valesse os esforços. A fome era sempre maior que os ganhos. É impossível não refletir sobre o nosso desperdício diário.

“Hoje fiz arroz e feijão e fritei ovos. Que alegria! Ao escrever isso vão pensar que o no Brasil não há o que comer. Nós temos. Só que os preços nos impossibilita de adquirir.” (pág. 133)

Crítica política: Esse livro deveria ser leitura obrigatória a todos os que se dispõe a concorrer a um cargo público no Brasil. A visão crítica que a Carolina tem das necessidades da favela do Canindé, são pertinentes ao hoje. Ela critica duramente, inclusive dá nome, aos políticos que só lembram da favela e dos seus pobres habitantes durante as eleições.

“… O que eu aviso aos pretendentes a politica, é que o povo não tolera a fome. É preciso conhecer a fome para saber descrevê-la.” (pág.26)

Solidariedade: Em meio à hostilidade também há solidariedade. As vizinhas que se ajudam e trocam pequenas porções de gordura, açúcar ou farinha. Ou os mais abastados, vizinhos que ela denomina como os “de alvenaria” que ofertam um prato de comida, ou uma porção que não lhes fará tanta falta.

Há ainda os compradores de ferro, em especial senhor Manoel, que sempre pagava mais do que de fato a mercadoria valia. Isso deixava Carolina feliz, apesar de sempre lembrar a eles que estavam pagando mais.

Carolina descreve com carinho as ações promovidas pelos Centros Espíritas e Igreja Católica, que oferecem roupas e agasalhos no inverno, cestas básicas sempre que possível, além de medicamentos e serviços de saúde. É muito mais que caridade, é empatia e amor ao próximo.

Amor pela literatura: “Quando cheguei em casa era 22,30. Liguei o radio. Tomei banho. Esquentei comida. Li um pouco. Não sei dormir sem ler. Gosto de manusear um livro. O livro é a melhor invenção do homem.”. (pág.22)

Um amor que sobressai a fome, a miséria, a violência e que dá luz a vida de Carolina. Embora em alguns momentos ela critica duramente o filho que sempre lê quadrinhos.

A literatura é o bálsamo que mantém Carolina viva e lúcida em inúmeros momentos de dificuldades, que corresponde a 99% do livro.

Para ela que lutou tanto para sair da miséria. Que amou tanto a literatura, o reconhecimento veio tardio, contudo cabe a nós leitores manter viva a memória desta escritora excepcional.

Quarto de Despejo – Diário de uma favelada é uma obra prima da literatura nacional. Leitura mais que obrigatória a todas as faixas etárias leitoras desse país. Prestigie Carolina Maria de Jesus.

6. MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS - MACHADO DE ASSIS https://atraidospelaleitura.wordpress.com/2015/10/04/resenha-memorias-postumas-de-bras-cubas/

Machado de Assis escreveu Memórias Póstumas de Brás Cubas em 1880 e é com essa obra que inicia o Realismo no Brasil. É uma historia que surpreende desse o título “Memórias Póstumas” o que sugere que foi escrito por alguém que já morreu. Além disso, a dedicatória é em forma de um epitáfio (frase escrita em túmulo) buscando, assim, atrair a atenção do leitor. Trata-se de um romance diferente de todos os outros, pois este é narrado por um defunto, Brás Cubas, membro da elite carioca do século XIX, herdeiro de terras e escravos.

Na infância Brás foi uma criança muito mimada por todos da família, principalmente por seu pai. Ao chegar à vida adulta se envolve com Marcela uma cortesã e por causa desse relacionamento ele quase leva sua família a falência. Diante desse ocorrido seu pai o obriga a ir para Lisboa estudar e se tornar um bacharel em Direito. Após alguns anos e com o falecimento da mãe ele retorna e tenta refazer sua vida com a ajuda do pai.

Este é um livro de memórias diferente dos outros, pois, inicia-se pelo óbito e não pelo nascimento. Assim, aproveitando- se do fato de estar morto, o narrador pode falar de tudo e de todos, sem nenhuma culpa. Diante disso, através do narrador, Machado faz uma crítica à escravidão, ao preconceito, ao adultério, à sociedade da época que somente valorizava quem tivesse altos cargos e elevado poder aquisitivo, aos casamentos arranjados, realizados apenas com casais da mesma classe social. Durante toda a sua vida Brás Cubas não concretizou nenhum dos seus projetos, pois não se empenhava para realizá-los.

Não alcancei a celebridade do emplasto, não fui ministro, não fui califa, não conheci o casamento. Verdade é que, ao lado dessas faltas, coube-me a boa fortuna de não comprar o pão com o suor do meu rosto. (p. 209).

O livro é composto por cento e sessenta capítulos e a narrativa não segue uma sequência linear, ela ocorre conforme as lembranças e pensamentos do narrador que relata ou interrompe conforme a sua conveniência.

7- QUINCAS BORBA - MACHADO DE ASSIS

https://guiadoestudante.abril.com.br/blog/estante/resenha-do-leitor-8220-quincas-borba-8221/

Quincas Borba é o segundo livro da trilogia realista escrita por Machado de Assis. Sucede a polêmica obra Memórias Póstumas de Brás Cubas e é sucedido por Dom Casmurro.

Resumidamente, o livro trata da história do ex-professor primário Rubião, enfermeiro e discípulo do filósofo Quincas Borba (o qual é apresentado em Memórias Póstumas).

Com a morte de seu amo, Rubião herda a sua fortuna e decide mudar-se para o Rio de Janeiro. No caminho, conhece o casal Cristiano Palha e Sofia. Apaixonado pela beleza de Sofia e pela simpatia de Cristiano, o protagonista acaba se envolvendo cada vez mais com eles.

O livro é muito interessante nesse aspecto, uma vez que analisa as relações humanas de forma bastante crítica. Machado mostra como muitas vezes o interesse financeiro é o motivador e mantenedor de relacionamentos.

Além disso, há uma crítica ferrenha a outros aspectos da sociedade, como o casamento. O autor expõe como, em várias situações, o casamento é promovido apenas por status, e não por amor.

Sem dúvidas, Quincas Borba é uma obra imperdível e que deve ser lida por todos aqueles que desejam olhar para a sociedade de uma forma diferente.”

ALÉM DAS SETE OBRAS MAIS COBRADAS NOS VESTIBULARES DE 2020, DESTACO OUTRAS QUE FAZEM PARTE DA COLETÂNEA EXIGIDA POR ALGUMAS UNIVERSIDADES.

1) SOBREVIVENDO NO INFERNO - GRUPO RACIONAIS MC’S;

https://revistacult.uol.com.br/home/sobrevivendo-no-inferno-racionais/


Na Divina comédia, como se sabe, entramos pelo inferno: é lá, entre as mais terríveis formas de punição e sofrimento, que vamos dar os primeiros passos com Dante e seus guias. Na obra dos Racionais MC’s, também estamos no inferno desde o início, sem ter, no entanto, a perspectiva do purgatório, muito menos do paraíso. Nossos guias – Mano Brown, Ice Blue, Edi Rock e KL Jay – são quatro jovens negros da periferia de São Paulo, cantando no meio das regiões mais violentas do país, onde a morte, a dor, a opressão, a miséria, a fome e a desesperança atingem milhares de pessoas. Ali, a trilha entre o além-túmulo e o aquém-túmulo é minúscula – e escorregadia.

Compreendo todos que têm afirmado que Sobrevivendo no inferno, disco de 1997, é o ponto alto da produção do grupo, mas gosto de ouvir a obra dos Racionais como um conjunto totalmente coeso sob as diversas feições (de forma e de conteúdo) que já assumiu em discos diferentes. Nessa perspectiva, não ouço Sobrevivendo no inferno como o auge da carreira; ouço-o como um ponto de maturidade, entre tantos (normalmente correspondentes aos discos em estúdio), de uma carreira que se distingue justamente por ter iniciado em altíssimo nível e, desde então, conseguido refletir sobre suas próprias contradições para voar ainda mais alto a partir delas.

Chama atenção, na capa do disco de 1997, o gerúndio: naquele momento, os Racionais sabem que continuam sobrevivendo no inferno (“contrariando as estáticas”, como Mano Brown canta), porque sobreviver no inferno é o que une as vozes dos Racionais e as de seus milhões de fãs da primeira à mais recente gravação. Toda a obra dos Racionais, a seu modo, é um sobrevivendo no inferno. Por isso, a meu ver, antes de entrar nos diversos círculos do disco de 1997, é preciso voltar quase dez anos e ouvir com atenção as primeiras gravações do grupo e tudo que fizeram desde então.

A primeira aparição dos Racionais MC’s em disco se deu na coletânea Consciência Black – Vol. 1, da Zimbabwe. É importante notar que o grupo surge numa coletânea, como tantas outras que foram lançadas à época, quase sempre por “equipes” que promoviam os famosos “bailes black”, como a própria Zimbabwe, Kaskatas e Chic Show. As coletâneas, além de serem uma forma de driblar restrições orçamentárias de produtores e grupos que estavam longe de viver a pujança das grandes gravadoras e artistas da época (como as estrelas do rock nacional), eram também uma oportunidade de testar os sucessos de uma geração importante, mas de qualidade muito variada, criando condições para que se projetassem dos bailes para as rádios e que, a partir dali, pudessem fazer os bailes mais fortes, lançar outros artistas e assim sucessivamente, fortalecendo toda a cena black que se armava em torno das “equipes”.

No entanto, assim como ainda hoje não gostam de subir ao palco apenas para festejar, os Racionais entraram na coletânea Consciência Black com os dois pés no peito do porteiro: “Pânico na Zona Sul” e “Tempos difíceis”, em meio às letras leves e à batida dançante de alguns “melôs” (com exceção de Sharylaine e Criminal Master, cujas letras justificavam a presença num disco que levava na capa a palavra “consciência”), colocavam na mesa não apenas os temas a que o grupo se dedicaria, mas também uma forma de fazer rap, de tocar e cantar, que marcaria os trabalhos do grupo e, com seu sucesso, a maior parte do rap nacional até os dias atuais.

Não considero exagerado afirmar que os Racionais daquelas primeiras gravações já apresentam, ainda que em forma parcialmente desenvolvida, a complexidade estética dos seus melhores momentos posteriores. Procure aí essas gravações e faça um teste: ao ouvi-las, tente abstrair a letra e reparar apenas na música – nos sons todos – que toca ao fundo. Não é apenas uma “base” sobre a qual os rappers colocam suas vozes: há um baile acontecendo ali, nos “samplers” e “scratches”, enquanto as letras vão retratando a vida terrível a que aquele povo, que merece ser feliz, é submetido. E esse mesmo teste pode ser feito com quase todas as músicas dos Racionais desde então. Claro, dali em diante, a cada disco, os Racionais têm acesso a mais recursos musicais e técnicos, o que deixa suas músicas com mais camadas, mas o nó baile-fúria se mantém.

É inegável que, com suas letras, os Racionais querem chamar o povo preto à consciência, e o fazem de diversas maneiras, nem sempre explícitas, durante as três décadas (até aqui!) de existência do grupo, mas, ao reparar no “baile” que toca sob as letras, constatamos algo ainda mais brilhante: aqueles quatro jovens, todos com cerca de 20 anos, sabiam desde o início que chamar à consciência não poderia ficar apenas nas palavras, mas também na forma como a cultura negra seria valorizada como um todo junto às suas letras fortes, com destaque, claro, para a música negra.

O grupo de 1989 é o mesmo que vai, depois de duas décadas, deixar seus shows cada vez mais “dançantes”. Basta lembrar que, no disco/DVD ao vivo Mil trutas, mil tretas (2006), Brown exalta o “som de preto” e diz que quer “ver os pretos dançar, ser feliz”. Ou o batuque que abre “Quanto vale o show”, no disco Cores & Valores (2014): “a primeira coisa que eu aprendi a fazer na minha vida”. E nem preciso falar do disco solo de Mano Brown, Boogie Naipe (2016): baile total!

Se as equipes do “baile black” chamaram os Racionais para subir ao palco (e eles subiram, colocando “peso” e algum amargor na festa), trinta anos depois é a vez de os Racionais chamarem o “baile black” para seu palco, devolvendo a leveza, o suingue e, principalmente, os temas e sonhos que tiveram que “esconder” num primeiro momento. Em entrevista recente, Mano Brown traçou, com precisão, um arco que ajuda a entender as três décadas de baile e fúria dos Racionais MC’s:

“E hoje, passados os anos, eu penso: o que um moleque de 21 anos podia fazer de tão mal contra o sistema, fora aquele rap? Era a arte do blefe: eu pesava 70 quilos, não tinha dinheiro pra pegar um ônibus e já ameaçava o sistema. E o sistema acreditou. Entendeu? O que eu poderia fazer contra, mais, fora aquilo ali? Sei lá, pegar uma arma, virar assaltante, morrer rápido? Então… a leveza da música, o lado leve, que ninguém percebia, era a idade que a gente tinha. A gente não tinha condições de fazer muita coisa fora a música. Hoje em dia eu tenho condições de fazer muito mais. Até falando de amor. Eu sou muito mais perigoso.”

Na mosca: o percurso dos Racionais é justamente a longa caminhada que vai dessa “arte do blefe” até o momento em que, falando de amor, o rap pode ser ainda mais “perigoso”, sempre andando à beira do abismo de possibilidades de “morrer rápido” que era e ainda é a vida dos jovens negros na periferia de São Paulo. Como “periferia é periferia em qualquer lugar”, não demorou para que aquele moleque de 70 quilos e seus parceiros entrassem no coração de milhões de jovens em todo o país, fazendo com que a história do grupo se confunda com a história de toda a sua geração.

Não posso me deter aqui nas diversas formas que esse nó entre baile e fúria assumiu nas gravações seguintes dos Racionais até Sobrevivendo no inferno (e, claro, dele em diante), então deixo aqui como sugestão esse teste de audição que, ao menos num primeiro momento, comete a crueldade de fatiar os Racionais para ser capaz de reconhecer a grandeza do projeto estético do grupo: ouvir só a letra, ouvir só a música (por música, aqui, entenda-se todo o complexo de sons – sirenes, tiros, freadas, choro, rádio etc. – que espalharam pelos discos) e, depois, fazer a audição integral da música, ou melhor, dançar no ritmo dela, mas sempre dançar com fúria.

Nos EPs Holocausto urbano (1990) e Escolha o seu caminho (1992), além de “Pânico na Zona Sul” e “Tempos difíceis”, o grupo apresenta outras seis faixas que confirmam essa fusão entre o discurso que se propõe a conscientizar os iguais (sobre questões raciais e sociais) e o avanço estético do grupo, que vai colocando ainda mais camadas musicais entre a base e a letra das músicas. “Voz ativa”, por exemplo, leva essa dupla pancada – letra e música – ao extremo: “Eu tenho algo a dizer/ E explicar pra você/ Mas não garanto porém/ Que engraçado eu serei dessa vez”. Enquanto Brown, Blue e Edi Rock cantam uma letra que resume numa espécie de manifesto as ideias que vinham aperfeiçoando até ali, desafiando o racismo em diversos níveis da sociedade brasileira e lançando inclusive suas lideranças, o DJ KL Jay leva o baile também ao extremo, colocando para dançar a “juventude negra que agora tem voz ativa”.

Raio X do Brasil (1993), primeiro LP do grupo, em que estão algumas das faixas que projetam definitivamente os Racionais – “Fim de semana no parque”, “Mano na porta do bar” e “Homem na estrada”, entre outras que já faziam a fama do grupo nos anos anteriores –, é uma obra-prima que consolida o que os Racionais significariam na cultura brasileira dali em diante: ninguém mais poderia falar de música e de arte em geral no Brasil, entre outros temas, sem considerar aquele grupo que levou milhões de ouvintes para passear nos “parques” das periferias brasileiras e, assim, colocou no centro das atenções – de quem vive nas periferias e também de quem vive bem longe delas – uma forma de olhar para o país, para seu povo, para suas injustiças e violências, que não se encontrava em disco algum, em jornal algum, em novela alguma.

É a partir daí, do reconhecimento nacional (inclusive dos inimigos públicos e detratores privados) que veio durante esse percurso, mas principalmente da força que as ideias e os sons do grupo ganham nas “quebradas” em que os Racionais se gestaram, que podemos entender a força que terá, em 1997, o lançamento de Sobrevivendo no inferno, que chega esvaziando o lugar para o “estilo pesado” e “a palavra [que] vale um tiro” do grupo que encarna a “fúria negra”. Mano Brown, então, vai precisar de muita humildade para se apresentar como “apenas um rapaz latino-americano/ apoiado por mais de 50 mil manos”, porque ele e seus parceiros já são vistos como gigantes, com milhões de ouvidos atentos a suas batidas e palavras e de olhos arregalados diante do inferno que os Racionais, como nenhum outro artista, descortinam.

No coração do inferno (e vice-versa)

É com justiça que Sobrevivendo no inferno ganha agora todo esse destaque novamente, após a indicação para um dos principais vestibulares do país – Unicamp – e a consequente edição em livro, pela Companhia das Letras, com a transcrição das letras precedida de uma bela apresentação de Acauam Silvério de Oliveira.

Quem tem o ouvido viciado na batida do rap sabe que o “livro de letras” não é o suporte perfeito para a obra dos Racionais – em que o nó entre letra e música, com elementos de baile e fúria que se expressam numa e noutra esfera, fundindo-as para atingir os altos níveis que somente assim atinge –, mas é importante ter as letras desse disco transcritas de modo confiável, levando-as também a quem ainda não as sabe de cor e, agora, poderá ir ao disco conhecendo antes, como texto, as letras.

O livro Sobrevivendo no inferno é um produto para o vestibular, claro, mas vai além dele, porque os Racionais estão em muitas esferas que transcendem o vestibular e a universidade. Aliás, é o disco que vai cair no vestibular, não o livro, a letra sem a batida. E espero que todos os envolvidos assim tratem – como um todo! (A propósito, diversas vezes transcrevi as letras dos Racionais, discos inteiros, porque nos encartes não havia a versão “oficial”, e depois discutia com amigos essas transcrições, os versos que não entendia perfeitamente, as gírias que não conseguia sacar etc.)

Como um todo, repito, Sobrevivendo no inferno é uma pancada – musical, cultural, histórica, política, poética. Para entender a força dessa pancada, a filósofa Djamila Ribeiro usa uma imagem muito precisa: organizar o ódio. Os Racionais se tornaram e mantiveram e cresceram como Racionais porque souberam organizar o ódio. Não reagiram da forma autodestrutiva como o sistema previa: se armaram de ritmo e poesia e partiram para o ataque – fúria e baile. É por isso que Acauam Oliveira pode dizer, enfaticamente, que esse “é um disco que salvou vidas”.

Essa organização do ódio nos Racionais é a razão do alcance estético e político do disco, na época e ainda hoje. Mais que isso: é o que dá a Sobrevivendo no inferno o status de obra-prima, capaz de continuar produzindo sentidos, cada vez mais intensos, com o passar do tempo. Note-se, ainda, ilustrando essa capacidade de organização, uma passagem da introdução do livro, em que Acauam Oliveira chama a atenção para a estrutura do disco, que se assemelha à de um culto religioso:

[…] cântico de louvor e proteção direcionado ao santo guerreiro (“Jorge de Capadócia”); leitura do evangelho marginal (“Gênesis”); entrada em cena do pregador do proceder, explicando (ou confundindo, a depender da necessidade) os sentidos da palavra divina (“Capítulo 4, versículo 3”); o momento dos testemunhos das almas que se perderam para o diabo, com resultados trágicos (“Tô ouvindo alguém me chamar” e “Rapaz comum”); intermezzo musical para velar aquelas mortes, interrompendo por tiros que fazem recomeçar o ciclo; a pregação ou mensagem central (massacre do Carandiru) que liga o destino daqueles sujeitos ao de toda a comunidade (“Diário de um detento”), chave de compreensão do destino de todos e descrição do próprio inferno; exemplos do modo de atuação do diabo no interior da comunidade (“Periferia é periferia”); exemplos do modo de atuação do diabo fora da comunidade (“Qual mentira vou acreditar”). Ao final, um momento de autorreflexão sobre os limites da própria palavra enunciada (“Mágico de Oz” e “Fórmula mágica da paz”) e os agradecimentos a todos os presentes, verdadeiros portadores da centelha divina (“Salve”). […]

De fato, quem vê a cruz dourada na capa do disco (e, agora, do livro), o objeto simulando um exemplar da Bíblia (já no disco), concorda que, para os Racionais daquele momento, principalmente, uma das formas de sobreviver no inferno – uma das formas de salvar vidas – é a religião. Mas logo descobre que a “Bíblia velha” está ao lado de “uma pistola automática e um sentimento de revolta”.

E é justamente por isso, porque não simplifica as formas que o ódio assume lá onde “o demônio fode tudo”, que o disco é tão forte. Na verdade, avançando num caminho em que mais e mais se reconhecem naqueles que antes criticavam duramente –seus iguais, outros “rapazes comuns” –, os Racionais não podem simplificar.

O cenário e os personagens das músicas são os mesmos de sempre: a periferia, mas agora aproximada, de modo radical, do destino dos jovens negros que sobrevivem ali – o cemitério ou a cadeia, onde a morte também o espera. A cadeia como antessala do cemitério. A vida no crime como atalho para o cemitério. Aliás, é um disco todo à beira da morte, por isso leva a palavra “sobrevivendo” na capa. À beira, sim, mas também de luta contra a morte cada vez mais próxima, banalizada, porque ali, “na lei da selva”, a relação entre rapazes comuns é mediada por um simples “click, cleck, bum”, de lado a lado: “no pente tem quinze sempre a menos no morro”.

A morte: a morte nas mãos da polícia, na rua ou na cadeia; a morte por traição dos próprios parceiros de crime. Há mortes por todos os lados. Em alguns momentos, são os mortos que falam, vendo do além o sofrimento dos seus parentes. Há corpos por todos os lados. É como se os Racionais tivessem espalhado pelo disco todos os 111 corpos do massacre do Carandiru e todos os corpos das vítimas de violência policial, de todas as vítimas da violência entre os “rapazes comuns” da periferia, para que ficassem ali para sempre, doendo, como feridas abertas – como no inferno.

Com esse gesto, os Racionais nos obrigam a refletir sobre o que ainda pode ser chamado de “vida” nas regiões mais pobres da cidade – ou do muro do presídio para dentro. E eles sabem: “minha vida não tem tanto valor quanto seu celular”. De fato. São famosas as estatísticas que abrem “Capítulo 4, versículo 3” na voz de Primo Preto, “mais um sobrevivente”: “60% dos jovens de periferia sem antecedentes criminais já sofreram violência policial/ A cada quatro pessoas mortas pela polícia, três são negras/ Nas universidades brasileiras, apenas 2% dos alunos são negros/ A cada quatro horas um jovem negro morre violentamente em São Paulo”.

Uma pesquisa recente feita por jornalistas da BBC News Brasil confirmou a atualidade desses dados depois de duas décadas. O que mudou? Muito pouco, salvo no item do acesso dos negros à universidade (“O percentual de negros com nível superior quase dobrou entre 2005 e 2015, fruto da política de cotas implantadas em universidades públicas e programas de bolsas e financiamentos para estudantes pobres, como Prouni e Fies”). Nada mais justo e apropriado, portanto, que a arte dos Racionais também chegue com mais destaque à universidade, não?

Sobrevivendo no inferno é gigante também porque é o disco em que os Racionais rompem com a autoimagem que vinham construindo até ali, tantas vezes colocando-se numa posição de superioridade com relação aos demais jovens negros, normalmente sob a acusação de que não eram conscientes como os rappers. Agora, no entanto, “respeito mútuo é a chave”. No lugar do enfrentamento com aqueles que, no fundo, são seus iguais, entra um esforço tremendo para derrubar as barreiras e mostrar que os rapazes comuns do rap se reconhecem nos rapazes comuns da “vida bandida”, nos rapazes comuns das igrejas, das escolas, do “sonho de doutor”; que “periferia é periferia em qualquer lugar”; e ganha até mesmo uma dimensão mais crítica/autocrítica: “Eu já não sei distinguir quem tá errado, sei lá/ Minha ideologia enfraqueceu/ Preto, branco, polícia, ladrão ou eu/ Quem é mais filha da puta? Eu não sei!”.

Vem daí, dessa mudança de percepção da sua própria existência e de uma visão mais complexa sobre os demais personagens da vida na periferia (os bandidos, os policiais, os trabalhadores, as tiazinhas, os pastores, os estudantes, que, no fundo, sejam pretos ou brancos, são todos pobres e estão lutando para sobreviver no inferno), alguns dos pontos altos do disco, como esse trecho de “Fórmula mágica da paz”:

2 de novembro era Finados Eu parei em frente ao São Luís do outro lado E durante uma meia hora olhei um por um E o que todas as senhoras tinham em comum A roupa humilde, a pele escura O rosto abatido pela vida dura Colocando flores sobre a sepultura Podia ser a minha mãe, que loucura!

Cada lugar uma lei, eu tô ligado No extremo sul da Zona Sul tá tudo errado Aqui vale muito pouco a sua vida Nossa lei é falha, violenta e suicida Se diz, que me diz que não se revela Parágrafo primeiro na lei da favela O assustador é quando se descobre Que tudo deu em nada e que só morre o pobre A gente vive se matando irmão – por quê? Não me olha assim, eu sou igual a você Descanse o seu gatilho, descanse o seu gatilho Que no trem da malandragem, meu rap é o trilho


Depois de alguns anos, na versão ao vivo em Mil trutas, mil tretas, Brown troca o “malandragem” do original por “humildade” no último verso. Sempre me chamou muita atenção essa troca. Grande poeta que é, Mano Brown não usa nenhuma palavra à toa, tudo tem um peso calculado nas suas letras, seja no original ou na hora que voltam aos palcos (quando voltam…). Que o rap, de “trem da malandragem”, tenha se tornado – ou queira se tornar – “trem da humildade” é mais um indicativo de mudança de postura para continuar sobrevivendo no inferno. Diria mais: a palavra “humildade” até mesmo combina mais com o clima geral do disco de 1997, um disco em que a “malandragem” é questionada profundamente: “a vida bandida é sem futuro”.

O pianinho suave que acompanha o “Salve”, última faixa do disco, toca fundo. A geografia periférica que os Racionais traçam nos agradecimentos estende o roteiro daquele “trem da humildade”, que passa recolhendo aliados e afastando “os porcos”. As grades caem e a “comunidade do outro lado do muro” se funde, no corpo dos sobreviventes, aos bairros mais pobres de São Paulo, da região metropolitana, de outros cantos do país. É ali que a “trilha sonora do gueto” vai salvar vidas.

Outros círculos

Da mesma forma que, no início, defendi que para entrar em Sobrevivendo no inferno é necessário olhar com muita atenção como a obra dos Racionais se constitui até ali, olhar para o que fizeram depois obviamente também ajuda a compreender melhor a dimensão daquele disco específico dentro de uma obra que, como já disse, gosto de ver como um todo cheio de revisitações, reflexões, conexões internas etc. Em alguma medida, é como se o grupo, a cada largo passo que deu, colocasse para si mesmo desafios que se resolvem – ou reenfrentam – nos trabalhos seguintes.

Passaram-se longos cinco anos até que os Racionais voltassem ao estúdio depois de Sobrevivendo no inferno. Os fãs não puderam, no entanto, reclamar do que lhes foi entregue ao final dessa temporada de ansiedade sobre o que viria depois daquele grande disco e, ao mesmo tempo, de incertezas sobre a continuidade do grupo. A forma esquiva como os Racionais sempre lidaram com a grande mídia, numa época anterior à da comunicação direta pelas redes sociais, era um prato cheio para alimentar teorias conspiratórias sobre a vida do grupo e de seus integrantes, mas eles não cederam e o disco duplo Nada como um dia após o outro dia (2002) chegou provando que os Racionais MC’s ainda tinham muitos círculos do inferno a apresentar.

“Jesus está por vir, mas o diabo já está aqui” – o disco começa com uma rajada, seguida do canto de um galo e da campainha chata do despertador. Os Racionais voltam olhando frente a frente para seus manos – e olhar para seus manos é o mesmo que se olhar no espelho – e gritam: vamos acordar, vamos acordar! Enquanto a letra vai mandando erguer a cabeça e a guarda para as tretas da “vida loka”, o baile toma toda a atmosfera do disco, porque “até no lixão nasce flor”. Nas mais de vinte faixas do disco, os Racionais apostam em outras formas de sobreviver no inferno.

A perfeição de letras como “Vida loka” (I e II), “Negro drama”, “Jesus chorou” e “Da ponte pra cá”, somada à riqueza sonora de todo o disco, faz de Nada como um dia após o outro dia o álbum preferido da maior parte dos fãs dos Racionais – não fiz esta pesquisa, mas é a impressão que tenho. Aliás, o disco cria uma nova legião de fãs (e admiradores mais comedidos) dos Racionais. E nada nele é por acaso.

O grupo que vinha do sucesso de Sobrevivendo no inferno parece ter decidido fazer um disco ostentação. Foi-se o tempo das coletâneas, dos EPs, dos improvisos: “tudo vai, tudo é fase/ logo mais vamo arrebentar no mundão”. Desde a foto da capa, os Racionais chegam num disco grandioso, duplo, que reúne tudo o que tinham recolhido de melhor até ali: todas as conquistas estéticas e políticas da trajetória, tudo o que aprenderam na marra, o que deu certo nos trabalhos anteriores, tudo agora é levado para outro nível, inclusive em termos de produção, de técnica, de qualidade. Aqueles quatro rapazes que, nos anos 1980, muitas vezes não tinham grana para se deslocar até os bailes, agora tinham condições de produzir um disco à altura das suas pretensões e do seu talento absurdo: “preto e dinheiro são palavras rivais, é?”

A espera pelo novo trabalho de estúdio, depois de Nada como um dia após o outro dia, foi ainda maior. Cores & Valores saiu apenas em 2014, mas desta vez os fãs dos Racionais não tinham passado todo o período sem notícias sobre o destino do grupo e dos integrantes. Os Racionais tinham se projetado muito com o trabalho anterior e, digamos, ampliaram bastante os negócios: shows em casas maiores em todo o país, parcerias com muitos artistas de estilos diferentes e uma abertura maior para a imprensa tornaram mais fácil a vida de quem queria acompanhar seus passos.

Mas Cores & Valores não veio trazer os Racionais de sempre para o palco. Pelo contrário: é mais uma revolução. Muitos fãs torceram o nariz para o disco complexo, truncado, cheio de camadas sonoras e letras densas, algumas fragmentárias, oferecendo pouco mais de 30 minutos de duração total depois de uma espera tão longa. Eis o segredo de Cores & Valores, a meu ver: não é o menor disco do grupo, mas sim a sua maior música. Uma pequena ópera, em que as peças são encadeadas de modo às vezes inusitado, refletindo sobre a história do grupo, encarando novamente seus temas mais difíceis. Uma espécie de balanço (com muito balanço) quando o grupo vê que é hora de ir novamente para o espelho se reinventar, inclusive pelo que acontece ao seu redor no rap nacional, mas também na música em geral, na cultura e na política do país.

Por fim, cabe anotar que, entre os dois últimos discos de estúdio, os Racionais deram ao público dois trabalhos muito importantes: Mil trutas, mil tretas (2006), trabalho ao vivo lançado em CD e DVD, e a coletânea em comemoração de aniversário, Racionais MC’s 25 anos (2013). Observar o que acontece com os Racionais – suas escolhas – nesses trabalhos “intermediários” e mesmo em cima dos palcos, entre um disco de estúdio e outro, é fundamental para entender melhor o conjunto e, quem sabe, perceber os rumos que o grupo vai tomar, ainda que não haja garantia quanto a isso: a regra dos Racionais é “um, dois, nem me viu, já sumi na neblina”.

Basta lembrar que Cores & Valores surpreendeu muita gente também porque não recolheu algumas músicas que já circulavam bastante pela internet e shows como se fossem “do próximo disco”, entre elas as excelentes “Mente do vilão” e “Mil faces de um homem leal”. Se sempre houve muita especulação quanto ao presente dos Racionais, imaginem então quanto ao seu futuro. Enquanto isso, as entrevistas, os trabalhos individuais e outras parcerias dos integrantes do grupo vão dando força à única certeza que podemos ter agora: os Racionais MC’s ainda têm muita munição.


2) A FALÊNCIA - JÚLIA LOPES DE ALMEIDA

https://biblioo.cartacapital.com.br/opulencia-e-destruicao-em-a-falencia-de-julia-lopes-de-almeida/#:~:text=Em%20%E2%80%9CA%20Fal%C3%AAncia%E2%80%9D%20(1901,em%20um%20golpe%20de%20azar.&text=Este%20%C3%A9%20um%20dos%20pontos,relev%C3%A2ncia%20na%20pena%20da%20escritora.


Em uma época dominada pelo universo masculino, as linhas da escritora carioca Júlia Lopes de Almeida (1862 – 1934) retratam mulheres com pensamentos e posturas díspares das representações feitas por romancistas de renome da época. No lugar de criaturas que oscilam entre beleza e ambição, há aquelas que escolhem a independência e o trabalho; para as paixões desenfreadas e as maquinações de alcova, não há o peso das correntes e das chagas públicas. Basta lembrar o final trágico de Emma Bovary em “Madame Bovary” (1857), de Gustave Flaubert, ou o estigma marcado de “A Letra Escarlate” (1850), de Nathaniel Hawthorne, para saber como a infidelidade feminina era encarada mundo afora. Focando em um exemplo mais local, há a rejeição transformada em exílio de Capitu, personagem de “Dom Casmurro” (1899), do conterrâneo Machado de Assis. Os exemplos são muitos.

Em “A Falência” (1901), Júlia descreve a ruína de uma família estruturada na base do comércio de café e que perde tudo em um golpe de azar. A narrativa se passa na cidade do Rio de Janeiro, entre 1891 e 1893, no período republicano (recém-saído das abas do Império). O ponto central é a opulência – e posterior falência – da família Teodoro, puxada pelo rico comerciante de café Francisco Teodoro, que teve sua fortuna devassada por especulações financeiras. Teodoro é um imigrante português pobre, pé na terra, que veio tentar a sorte no Brasil. No império tupiniquim, angariou sua riqueza com muito sangue e suor, com jornadas de trabalho excessivas, profundos sacrifícios e esforço hercúleo.

Ao alcançar êxito com o negócio do café, em expansão no Brasil no final do século XIX e início do século XX, Teodoro casa com uma mulher sem posses, mas bonita, e forma uma família. Mergulhado no trabalho e nas finanças, o comerciante não percebe os rumos que a vida de seus familiares vai tomando. Camila é a personagem escolhida por Júlia Lopes de Almeida para nadar contra a correnteza da época ao manter um caso de longa data – sem tantas culpas ou remorsos – com o médico e bon vivant Gervásio. Afundada até o pescoço em uma sociedade que condena a paixão fora do casamento a ferro e fogo, especialmente quando se trata da condição feminina, Camila demonstra consciência e uma mea culpa leve ao driblar a situação. Este é um dos pontos que difere Júlia Lopes de Almeida de seus contemporâneos.

A participação de outras mulheres na trama também ganha destaque e relevância na pena da escritora. Há empregadas fortes e conselheiras, como Noca; agregadas que sofrem com paixões impossíveis, mas que enxergam no trabalho uma forma de sobrevivência, como é o caso de Nina; dois outros destaques ficam para Ruth Teodoro, filha do casal, que tem uma mudança de atitude notável ao enfrentar a grande crise que ataca à família, e Catarina, irmã de um dos homens apaixonados por Camila Teodoro, o capitão Rino, que reconhece na sua independência mental e arguta inteligência um desafio quando se trata de contrair matrimônio.

As figuras masculinas da trama são elaboradas em cima de estereótipos. É possível localizar o homem trabalhador, sem pendor artístico ou intelectual, como Francisco Teodoro; o refinado e cultíssimo doutor Gervásio, que valoriza o belo e a arte em detrimento do mundano; o ingênuo e reto capitão Rino, homem apaixonado e que idealiza a mulher amada, e, fechando o ciclo dos protagonistas, encontramos o superficial e pródigo Mário, filho de Teodoro.

A maior riqueza de Júlia Lopes de Almeida é não pesar a mão em assuntos como infidelidade e independência de pensamento, temas com frequência analisados sob a lupa do final trágico para as mulheres aos olhos dos romancistas do sexo masculino. Por outro lado, a autora continua sendo uma pessoa de seu tempo e de sua classe social, imersa em maneirismos aristocráticos quando se refere à diferença entre negros e brancos – apesar de toques disfarçados de caridade e consciência.

Este foi o meu primeiro contato com Júlia Lopes de Almeida, oportunizado pela parceria com a Editora Unicamp. Nesta edição, lançada em 2018, o leitor conta com um prefácio completo escrito pela professora Regina Zilberman, material de grande utilidade informacional e didática – impedindo os mais ávidos e apressados de pular as páginas.

Trata-se de um romance urbano e histórico, que apresenta outra perspectiva do universo social – agora com um olhar bem mais voltado para o feminino – e que traz na bagagem as ideias e sugestões de sua época. Em “A Falência“, mulheres permanecem solteiras, trabalham e evoluem no percurso narrativo. Aos interessados em literatura histórica, uma edição destacadamente interessante e que vale o investimento.

3) O ESPELHO - MACHADO DE ASSIS

https://conteai.wixsite.com/home/single-post/2015/10/08/Resenha-O-Espelho


O Espelho é um conto de Machado de Assis que integra a obra Papeis Avulsos (1882). O escrito traz profundas reflexões filosóficas ao leitor, apresentando uma nova teoria metafísica sobre a alma humana.

O enredo se inicia com uma breve descrição sobre uma reunião entre cinco senhores que discutiam questões de alta transcendência. Um deles, chamado Jacobina, homem provinciano, capitalista, inteligente, não sem instrução, e, ao que parece, astuto e cáustico, dificilmente abria mais que duas ou três palavras.

Entretanto, em certo ponto, quando solicitada a opinião do casmurro, o mesmo resolve desenvolver sobre sua teoria e sobre uma certa história de sua vida.

Sua teoria consistia na defesa de que o homem tem duas almas: uma que olha de dentro para fora, e outra que olha de fora para dentro. A alma exterior pode ser um espírito, um fluido, um homem, muitos homens, um objeto, uma operação; enquanto a alma interior transmite a vida. Assim, as duas completam o ser.

O conto aborda principalmente a questão da identidade, da reestruturação da personalidade conforme as circunstâncias apresentadas.

Posteriormente, Jacobina conta que com 25 anos recebeu o título de alferes e passou a ser muito elogiado por seus familiares e amigos, o que acarreta uma mudança em sua alma exterior, tendo “o alferes eliminado o homem”, pois fora substituída por tudo aquilo que se relacionava com o exercício da patente. A ascensão social e a atenção excessiva que recebe o transformam, fazendo-o esquecer aquilo que verdadeiramente o constituía.

Pouco tempo depois, é convidado por sua tia Marcolina para visitá-la em seu sítio. Esta oferece ao alferes um grande e pomposo espelho da Família Real Portuguesa em seu quarto e o trata com muitos mimos. Certo dia, Marcolina encarrega seu sobrinho de cuidar do sítio para que pudesse fazer uma viagem e deixa Jacobina na companhia dos escravos.

Estes, porém, aproveitando a ausência da senhora, fogem e deixam o alferes sozinho, o que desencadeou nele uma onda de angústia e solidão. Em certo momento, o homem para em frente ao espelho de seu quarto e enxerga uma imagem difusa, vaga e cheia de sombras, resultado da imagem que ele fazia de si na ausência dos outros. Desta forma, decide vestir a farda de alferes e finalmente enxerga uma imagem nítida e clara, resultado da “recuperação” de sua alma exterior.

Assim, neste conto, através de uma profunda análise do comportamento humano, Machado de Assis revela que a “alma exterior” do ser humano, constituída pela imagem que os outros fazem do ser e por aspectos superficiais, é bem mais valorizada que a “alma interior”, que é aquilo que o homem realmente é.

4) O MARINHEIRO - FERNANDO PESSOA

https://www.todasasmusas.com.br/01Debora_Oliveira.pdf

“Drama estático em um quadro”. Assim foi definida por seu próprio autor, Fernando Pessoa, a obra O marinheiro, publicada no primeiro número da revista Orpheu em 1915. “Se por ‘drama’ entendermos o texto que se propõe à representação, ‘teatro’ assinalaria o local de espetáculo, de modo que ‘drama’ nomearia o texto antes da representação textual do espetáculo” (MOISÉS, 1998a, p. 123).

Em O marinheiro, as personagens não se movem, apenas dialogam. Apesar de apresentar evidentes características dramáticas, seu enredo tem enfatizada a poesia; é constituído por diálogos poéticos. Por esses motivos, tem sido considerado por diversos críticos – como Massaud Moisés, por exemplo - um poema dramático, desprovido do principal elemento do drama: a ação.

Sobre a fusão entre teatro e poesia, considera-se que “o teatro move-se na direção da poesia como um de seus mais potentes focos de atração. Não estranha, por isso, que o dramaturgo seja chamado, às vezes, poeta dramático, e que um estudioso do teatro lastime haver-se abandonado tal expressão (MOISÉS, 1998a, p. 141).

Um poema dramático possui ênfase em sua condição e função poética, por outro lado, o que se denomina drama poético possui ênfase em sua condição de texto destinado à representação. Por ocorrer em um só ato e não possuir de modo explícito todos os elementos pertinentes a uma peça teatral – tal como a ação –, o texto de O marinheiro parece ser destinado apenas à leitura, e não à encenação. Porém, há diversos fatores que contribuem para a consideração de que tal obra constitui um drama diferente do habitual, mas ainda sim essencialmente drama, talvez um drama poético.

Inicia a obra uma didascália. É o momento no qual há a apresentação do cenário onde se passa o drama: um quarto num castelo antigo, à noite. Em um caixão no centro do quarto circular uma donzela morta é velada por outras três donzelas. A presença da morte é indelével nesse cenário e parece deixar as veladoras desconfortáveis a ponto de logo manifestarem o desejo de uma fuga da realidade.

Esse é o primeiro sinal de que o texto é destinado à encenação, já que as didascálias são rubricas do autor, considerando que “as indicações ou marcações, de cenário ou de fala, pertencem ao teatro como espetáculo, não ao teatro como texto literário. O cenário, ou melhor, o fragmento de prosa que descreve o ambiente no qual se desenrola a ação, não faz parte do texto como expressão de conflito ou drama. Código não-literário, sinalização ‘fria’, corresponderia, rigorosamente, a uma digressão ou explicação à margem, visando a situar a ação em algum espaço físico. Por seu turno, as marcações referentes às falas e às situações não desempenham a função de linguagem, mas de sinal, que se esgota no ato da representação e que somente se endereça ao espetáculo (MOISÉS, 1998a, p. 125).

Sem exata noção das horas ao arrastar da negra noite, não havendo qualquer relógio no local onde estão as personagens, seus corpos permanecem isolados nesse ambiente funesto, mas suas mentes dirigem-se a um ambiente onírico ao curso dos diálogos, iniciados pela primeira veladora.

Quase sem querer, elas falam sobre o passado. Relatam as lembranças de cada uma, narrando fatos que talvez nunca tenham existido. Parecem temer o silêncio, talvez porque ele fortalecesse as presenças indesejáveis - a da morte, ou qualquer outra desconhecida, como se verifica na seguinte fala da primeira veladora: “Ah, falemos, minhas irmãs, falemos alto, falemos todas juntas... O silêncio começa a tomar corpo, começa a ser cousa... Sinto-o envolver-me como uma névoa... Ah, falai, falai!... (PESSOA, 2008, p. 69).”

Na continuação dos diálogos as frases são ditas como revelações, possivelmente até mesmo para a personagem que as proferiu. “A existência das personagens está de tal modo presa ao diálogo que pode suceder de fantasmas ou espectros intervirem numa peça como autênticos figurantes. Entretanto, apenas nos damos conta de sua presença através do diálogo (MOISÉS, 1998a, p. 129)”.

Por vezes, as falas em O marinheiro possuem um tom misterioso, como se as veladoras fossem momentaneamente influenciadas por entes que lhes emprestavam a voz para falar, como se pode constatar na seguinte fala da segunda veladora, referindo-se às frases que acabara de dizer sobre seu passado: “É talvez por não serem verdadeiras... Mal sei que as digo... Repito-as seguindo uma voz que não ouço, mas que está segredando... Mas eu devo ter vivido realmente à beira-mar... (PESSOA, 2008, p. 70).

A fuga da realidade intensifica-se quando as veladoras invadem definitivamente o mundo dos sonhos.

Segundo Freud “o sonho é um autêntico espetáculo para se ver – é um drama interior, em que o sonhador é a um só tempo o dramaturgo, o espectador, o diretor de cena e todas as personagens”. (apud MOISÉS, 1998b, p. 205).

É a segunda veladora que, por meio dos diálogos, expõe o sonho que um dia teve. Nesse sonho, vive um marinheiro que, estando perdido em uma longínqua ilha, sonha com uma nova pátria.

O objeto desse marinheiro, o que ele busca, é sua vida na nova pátria por ele imaginada. O que o move é a perda da antiga, na qual vivia. Ele sonha para suprir a necessidade de seu objeto. Mesmo quando tenta recordar-se de sua terra natal, o marinheiro não consegue, não é capaz sequer de lembrar o que nela viveu, pois já adotou a nova pátria, por ele sonhada, como sua terra natal. Nela, já imaginou toda a sua vida, desde a infância.

É na fala das veladoras que são expostas ideias, pensamentos, sensações, sentimentos e, até mesmo, outro nível de realidade – a vida do marinheiro.

No decorrer dos diálogos sobre o sonho com o marinheiro, as três donzelas deslumbram-se com ele. Mas, encerradas as falas a respeito do marinheiro, a segunda veladora (que descreveu todo o sonho) suscita a hipótese de que talvez a única coisa real em toda essa situação fosse o marinheiro, sendo elas, na verdade, apenas parte de um sonho dele. Essa hipótese passa a atormentá-las. Foram as próprias personagens desse drama que, interagindo por meio das palavras, permitiram a presença do marinheiro em suas vidas, foi a segunda veladora quem “o despertou”.

Os diálogos travados entre as personagens não as levam a ação. Embora no início do drama a primeira veladora sinta vontade de ao menos mover-se passeando de um lado para outro no próprio quarto – já com o desejo de ir “buscar sonhos” (PESSOA, 1998, p. 67), para fugir da realidade diante de si –, em momento nenhum qualquer uma delas age, move-se ou abandona sua condição estática. Daí a definição de Pessoa sobre O marinheiro: “Chamo teatro estático àquele cujo enredo dramático não constitui ação – isto é, onde as figuras não só não agem porque nem se deslocam nem dialogam sobre deslocarem-se, mas nem sequer têm sentidos capazes de produzir uma ação; onde não há conflito nem perfeito enredo (PESSOA, 1998, p. 124).”

Porém, pode-se afirmar que O marinheiro possui especial enredo com o apoio do que afirma Pessoa na continuação do texto acima citado: “Dir-se-á que isto não é teatro. Creio que o é porque (...) o enredo do teatro é, não a ação nem a progressão e consequência da ação – mas, mais abrangentemente, a revelação das almas através das palavras trocadas e a criação de situações (PESSOA, 1998, p. 124).”

É a partir do próprio diálogo entre as veladoras que, posteriormente, surgem as angústias que as atormentam; conflitos que nascem e instalam-se na mente e nos pensamentos das três donzelas. “Assim, no drama, cada palavra proferida contém um significado, relaciona-se a uma intenção, contribui para um conflito que já está acontecendo ou está prestes a acontecer” (MOISÉS, 1998, p. 125).

O conflito ocorre por meio das intenções e vontades que se entrechocam, que, segundo Civita, provocam “a luta de homens contra homens, de homens contra deuses, de homens contra ideias” podendo também ocorrer na consciência da personagem (apud MENDES, 2000, p. 26).

Em seguida, Mendes afirma que o conflito no teatro pode ser psicológico “se a ação se passa no íntimo das personagens; (...) o conflito é a essência do teatro, da tragédia: com efeito, é o conflito que faz desencadear toda a ação, e o emaranhado da ação é o elemento mais importante de toda a narrativa, incluindo a narrativa dramática (MENDES, 2000, p. 26).”

O conflito central desse drama ocorre na mente das personagens, como conflitos interiores, trazendo a percepção da vida e da morte enquanto um mistério. As três veladoras passam a temer que a realidade do marinheiro prevaleça sobre a realidade de si mesmas. Tamanho é o terror sobre essa hipótese, que a primeira veladora prefere sentir temor sobre a realidade já conhecida de sua vida: “Sinto uma necessidade feroz de ter medo de que alguém possa agora bater àquela porta. Por que não bate alguém à porta? Seria impossível e eu tenho necessidade de ter medo disso, de saber de que é que tenho medo... Que estranha que me sinto!... Parece-me já não ter a minha voz... Parte de mim adormeceu e ficou a ver... O meu pavor cresceu, mas eu já não sei senti-lo... Já não sei em que parte da alma é que se sente... Puseram ao meu sentimento do meu corpo uma mortalha de chumbo... (PESSOA, 1998, p. 81).”

Assim sendo, nos diálogos nascem os conflitos, e deles, a ação. Segundo Aristóteles “são duas as causas das acções: o pensamento e o carácter (...) os caracteres são o que nos permite dizer que as pessoas que agem têm certas qualidades e o pensamento é quando elas, por meio da palavra, demonstram alguma coisa ou exprimem uma opinião (2004, p. 48).”

A personagem do marinheiro, sendo considerada o sujeito do drama, caracteriza também o resultado da ação presente no texto. As falas das veladoras o invocam, a partir de sua possível existência surgem conflitos em suas mentes; a ação resultante de toda essa situação transfigura-se na manifestação de uma diferente percepção (ou não percepção) da realidade.

Segundo Touchard, de acordo com a etimologia do próprio termo “‘drama’, poderíamos entender ação como ‘o movimento geral que faz que entre o início e o fim da peça qualquer coisa nasça, se desenvolva e morra” (apud MOISÉS, 1998a, p. 134).

Em O marinheiro, pode-se considerar que o movimento geral ocorrente é iniciado pelo incômodo que as veladoras sentem estando em um ambiente desconfortável – já que há uma morta, e a partir dela a presença da morte e de uma realidade rejeitada – do qual elas tentam dispersar-se travando diálogos.

Esse movimento geral simplesmente é a consequência de tais diálogos: um novo nível de realidade que domina o ambiente, conferindo à personagem do marinheiro o caráter de sujeito do drama.

Quando começam a voltar à realidade, percebendo o resultado de suas ações, o conflito torna-se ainda mais intenso na mente e na alma das veladoras, como verifica-se nas seguintes falas:

PRIMEIRA – (...) Para que foi que nos contastes a vossa história?

SEGUNDA – Já não me lembro... Já mal me lembro que a contei... Parece ter sido já há tanto tempo!... (...) O que é que nós queremos fazer? – já não sei se é falar ou não falar...

PRIMEIRA – Não falemos mais. Por mim, cansa-me o esforço que fazeis para falar... Dói-me o intervalo que há entre o que pensais e o que dizeis... (...) Preciso dizer frases confusas, um pouco longas, que custem a dizer... Não sentis tudo isto como uma aranha enorme que nos tece de alma a alma uma teia negra que nos prende? (PESSOA, 1998, p. 80-81).

Apontando a dramaticidade de O marinheiro e seu caráter trágico, há a seguinte consideração de Pessoa: “Começando de uma forma muito simples, o drama evolui gradualmente para um cume terrível de terror e de dúvida, até que estes absorvem em si três almas que falam e a atmosfera da sala e a verdadeira potência do dia que está para nascer. O fim desta peça contém o mais sutil terror intelectual jamais visto. Uma cortina de chumbo tomba quando elas não têm mais nada a dizer uma às outras nem mais nenhuma razão para falar (apud SEABRA, 1961, p. 31).”

Após o clímax do drama, no qual as veladoras chegam à absoluta dúvida sobre a realidade, ocorre a desilusão das personagens sobre suas próprias vidas, pois embora tenham acreditado que poderiam viver fora de sua realidade por meio dos sonhos, acabam tendo que abandoná-los, voltando às suas vidas e esperando pelo novo dia.

Sobre esse desfecho, pode-se constatar um efeito catártico, já que as dúvidas sobre a vida e a morte são recorrentes à humanidade, permitindo assim que o leitor reconheça-se na obra e lamente a triste existência das personagens, inclusive a do marinheiro destituído de sua desejada pátria.

Constituindo outra didascália, segue a descrição do novo dia que surge naquele cenário, encerrando esse drama despretensiosamente criado pelas personagens, ao que denomina a segunda veladora de “aventura interior” (PESSOA, 2008, p. 77).

Aparentemente um poema dramático, posto que, com evidentes características dramáticas, o texto de O marinheiro poderia ser considerado destinado apenas à leitura. Em diálogos poéticos, as veladoras criam uma atmosfera misteriosa, onírica, narrando lembranças e um curioso sonho. Quase sem perceber, permitem a presença de uma quinta personagem – o marinheiro. Ao despertá-lo, passam por conflitos que se instalam em suas mentes. A partir dos diálogos provém a ação desse drama, uma ação psicológica, que ocorre no interior das personagens, “travando-se no plano do diálogo e reduzindo as referências exteriores (a ação decorrente do deslocamento físico das personagens, com todo o seu cortejo de alterações no cenário, mise-en-scène, etc.) à sua expressão mais simples. (MOISÉS, 1998a, p. 135).”

Assim foi constituído um drama singular, que o texto oculta, mas também revela, e, principalmente, emoldura a beleza da palavra na arte dramática, sob a magia da poesia de Fernando Pessoa.


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