• Maria Silvana Alves

COMO MEU FILHO DISLÉXICO VAI CONSEGUIR APRENDER INGLÊS?


Há 20 anos leciono Língua Portuguesa na rede estadual de ensino do estado de São Paulo e, por várias vezes, ouvi meus alunos e pacientes desabafarem “puxa, a nossa língua é complicada mesmo!” Sim! São regras e normas que compõem uma fila quilométrica, eu até concordo. No entanto, a tarefa de aprender as regras da língua portuguesa pode não ser tão desafiadora como para aprender o inglês, principalmente para um aluno que apresenta a dislexia do desenvolvimento. Mas por que as dificuldades aumentam?


Para responder a essa questão, precisamos compreender algumas classificações e conceitos referentes a esses dois idiomas. As línguas, de acordo com o seu nível de complexidade, podem ser classificadas como “transparentes” e “opacas.” Essa classificação está intimamente ligada à correspondência grafofonêmica (letra-som) ou fonografêmica (som-letra). Em outras palavras, a língua portuguesa é considerada predominantemente como “transparente”, pois cada letra do nosso alfabeto apresenta correspondência com seu som de forma clara e direta, sem muitas variações, mesmo que haja casos em que as correspondências não são tão fidedignas (como o que ocorre com a letra S, por exemplo). Além da língua portuguesa, há várias outras línguas “transparentes” como o italiano, o alemão, o espanhol, das quais o finlandês é considerado a mais “transparente”.


Na contramão, a língua inglesa apresenta letras que podem representar vários sons, o que a torna uma língua “opaca”. “Considerado como uma das línguas mais opacas, o inglês tem 120 grafemas que correspondem a 44 fonemas” (Davies e Richie, 2003) aumentando, dessa forma, as chances do erro. Dentre os tipos de língua “opaca” podemos citar ainda o francês e o dinamarquês.


Considerando que a dislexia é um transtorno específico de aprendizagem em leitura caracterizado pela dificuldade em fazer a relação letra-som, agora podemos compreender a grande dificuldade que os disléxicos podem encontrar para aprender esse idioma.


“O cérebro disléxico não acessa as mesmas regiões cerebrais que o cérebro não disléxico. Para compensar esta falta, o disléxico acaba potencializando outras regiões do cérebro. É exatamente neste ponto em que temos diversas potencialidades para explorar. O disléxico acessa componentes do lado direito do cérebro, como uma forma de compensar a não utilização das regiões Occipital-temporal e Parietal-temporal. Dessa forma, a chave está em entender como esse lado direito do cérebro aprende e como podemos acessá-lo. O lado direito do cérebro tem três características bem interessantes: ele pensa em rede, busca a imagem do todo e tenta entender a conexão entre as partes. Além disso, o lado direito do cérebro está relacionado ao pensamento criativo, resolução de problemas e à expressão artística”, explica Rodrigo Guimarães, especialista em Ensino de Línguas Estrangeiras e criador do método Spindow.


Esse “funcionamento cerebral diferente” associado a um método de ensino mais tradicional - tanto da alfabetização em língua portuguesa quanto no aprendizado da língua inglesa -podem ser grandes obstáculos para um aprendente com dislexia.


Recomendado pela ABD (Associação Brasileira de Dislexia) e pelo CEDA (Centro Especializado em Distúrbios de Aprendizagem), o Spindow é um método multissensorial que vem apresentando excelentes resultados uma vez que otimiza o processo devido ao fato de promover a aprendizagem através da integração dos sentidos e sendo muito favorável na aprendizagem nas dislexias.


Há também outras dicas que podem ajudar o escolar com dislexia a aprender o inglês:


  • aulas particulares (um professor com perfil paciente, que acolha o aprendente respeitando seu ritmo de aprendizado e avançando à medida que perceber as assimilações de seu aluno);

  • assistir a filmes em inglês (para favorecer a ampliação do repertório lexical com a leitura das legendas);

  • leitura de textos em inglês (para estimulação da memória visual das palavras);

  • exercícios de reconhecimento e leitura logográfica de pequenos grafemas;

  • ditado com palavras já trabalhadas para facilitar a memorização e o “domínio” tanto da escrita ortográfica dessa palavra quanto de seus significados;

  • oportunidades para conversar em inglês com outras pessoas para retomar o que já aprendeu e “treinar o ouvido”.

O aplicativo Duolingo é outra ferramenta que poderá auxiliar as crianças com dislexia de forma divertida (o app apresenta o formato de jogo), personalizada, adaptando-se ao jeito de cada aprendente estudar, fazendo uso de um aprendizado “implícito”, considerado ideal para desenvolver uma base sólida em um idioma e suas regras.


Como sempre digo: estudar inglês pode até ser chato para alguns, mas aprender inglês é legal pra todo mundo!


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