• Maria Silvana Alves

CONHEÇA O FILME QUE INSPIROU A CRIAÇÃO DESTE BLOG!

Uma história de como ser uma criança disléxica pode ser um desafio a ser vencido diariamente no sistema padrão de ensino, porém, que também deixa claro que todos temos habilidades especiais e com as ferramentas de ensino adequadas e um pouco de dedicação por parte dos educadores e familiares, essas habilidades podem ser trabalhadas e afloradas, assim como a capacidade de aprender.



O filme indiano Taare Zameen Par (Como estrelas na Terra, toda criança é especial), lançado em 2007 pela Aamir Khan Productions, com produção e direção também de Aamir e de Amole Gupte, foi uma das inspirações para a criação desse blog.


No filme, o pequeno Ishaan Awasthi de apenas 9 anos, vive o drama de muitas crianças brasileiras em fase de alfabetização que pelo fato de alguns pais e professores ainda desconhecerem a Dislexia do Desenvolvimento, são taxados de desinteressados, lerdos, burros e preguiçosos. Com um dom nato para o desenho, Ishaan representava sua percepção sobre o mundo com cores e formas que pareciam saltar do papel e das telas de pintura. Estava cursando o terceiro período (sistema educacional da Índia) pela segunda vez, com grande chances de uma nova retenção por não conseguir acompanhar as aulas e por apresentar pouco avanço.

Nos primeiros minutos do filme já percebemos alguns sinais de alerta para o transtorno como a:

  • Distração (por Ishaan apresentar uma comorbidade muito comum à Dislexia – TDAH com perfil desatento - vive “no mundo da lua”);

  • Desorganização;

  • Falhas nas habilidades psicomotoras e na memória operacional fonológica;

  • Queixas sensoriais (em um momento, o aluno descreve à professora que as letras pareciam dançar);

  • Dificuldades com regras ortográficas, com a disciplina de matemática e;

  • Dificuldade em seguir múltiplas ordens dadas pelos professores.

Assistimos atônitos a transformação do quadro comportamental de Ishaan! À princípio, vimos uma fase em que encara as suas dificuldades de forma bem humorada e pueril escondendo, muitas vezes, suas inabilidades atrás de um mau comportamento. Aos poucos, percebemos que ele passa a ter consciência de seu “fracasso escolar” e do sentimento de culpa dos pais quando é transferido de um colégio regular para um internato, por decisão indiscutível de seu pai, um funcionário que levava uma vida agitada, sempre viajando e sobrecarregando a esposa com a tarefa de acompanhar a vida escolar de seus dois filhos.


A partir de então, pudemos evidenciar alguns prejuízos emocionais se manifestarem como:

  • Baixa autoestima e;

  • Perda da autoconfiança;

além de alguns sinais de depressão como:

  • Tristeza profunda;

  • Isolamento e;

  • Pensamento suicida.

Sofremos junto com a mãe de Ishaan (ela abriu mão de sua vida profissional para ajudar seus filhos) e seu irmão mais velho (sempre se esforçando para estar em destaque como um dos melhores de sua escola) que, mesmo contra a ideia do pai de ter enviado o garoto para o colégio interno, parecem acreditar que essa pode ser a única solução para a vida escolar dele.


UM NOVO OLHAR, UMA ESPERANÇA

Assim, quando pensamos que tudo está perdido para Ishaan, surge uma esperança: chega até a escola o professor substituto de Artes (o professor anterior castigava o garoto constantemente com palmatórias por não reproduzir de forma fidedigna o que havia proposto). O novo professor, Nikumbh (representado também por Aamir Khan, diretor e produtor do filme), lança um novo olhar para seu aluno e tenta, através de uma metodologia diferenciada e mais próxima da realidade de Ishaan, resgatar os vínculos do menino com a aprendizagem.


Depois de uma trajetória escolar tão conturbada, a criança parece, aos poucos, conseguir ser reintegrada ao seu grupo. O professor, que também apresenta dislexia, relembra dos sofrimentos que enfrentara no passado e consegue, depois de muito trabalho e dedicação, alfabetizar seu aluno. Primeiro, tenta conscientizar os professores e a direção da escola (conhecida pelo seu sistema educacional tradicional onde o conteúdo era transferido de forma mecânica) sobre o transtorno apresentado por Ishaan. Em seguida, vai até a casa dos pais do menino e explica a eles o que é a dislexia. Finalmente, leva a informação para o próprio Ishaan e seus colegas de classe em uma aula muito especial. O professor faz com que todos percebam que a dislexia é um jeito diferente de perceber o mundo e elenca uma série de personalidades como Thomas Edison, Einstein, Leonardo da Vinci, Pablo Picasso, Walt Disney, entre tantos outros que, perturbados com as letras, desenvolveram estratégias de metacognição para potencializarem os seus pontos fortes na dislexia. Alguns nas Artes, outros nas ciências, outros em canções maravilhosas, enfim, cada um com suas próprias capacidades, seus desejos e seus sonhos foi conquistando seu espaço e se tornaram importantíssimos na sociedade.

“Entre nós existem pedras preciosas que desafiaram os caminhos do mundo, pois puderam olhá-los com olhos diferentes.” Ram Shankar Nikumbh.

O menino, aos poucos, consegue sair daquele estado apático e acaba olhando para dentro de si percebendo quem realmente era e não o que passou a acreditar ser depois de tantas humilhações e chacotas de amigos e professores. Participa de um concurso de pintura promovido em toda a escola pelo seu professor de Artes e, claro, ganha o primeiro lugar.


MEU COMPROMISSO

Apesar de longo (140 minutos de duração), o filme consegue prender nossa atenção pela riqueza nos detalhes: músicas extremamente emotivas e que nos levam à reflexão através de suas letras; a percepção do garoto em relação ao mundo à sua volta; uma introdução ao transtorno de Dislexia do Desenvolvimento e seus sinais, entre outros aspectos. Deveria, a meu ver, fazer parte da grade curricular dos cursos superiores de graduação em Pedagogia e outras licenciaturas.


Eu o assisti pela terceira vez e cada vez mais me sensibilizo e me encorajo a conclamar esse mesmo olhar do professor Nikumbh para pais, professores e familiares de meus pacientes que apresentam dislexia, afinal como diz o próprio professor

“não podemos perder essas pequenas estrelas na Terra.”

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