• Maria Silvana Alves

A CORAGEM E A PERSISTÊNCIA NO DISLÉXICO



Sem sombra de dúvidas, uma das qualidades que mais admiro em um disléxico é a coragem. Percebo que através dessa coragem interna, ele consegue se motivar e perseverar a cada dia diante das dificuldades que precisa transpor. É muito gratificante para nós, terapeutas, percebermos as pequenas conquistas de nossos pacientes com dislexia. Cada uma delas representa um passo, um pequeno sucesso, que aos poucos vai levá-lo a sucessos cada vez maiores e quando ele menos perceber, suas inabilidades vão sendo contornadas e minimizadas tornando quase que imperceptíveis. É nítido o avanço quando o comparamos com ele mesmo lá no início do processo terapêutico. Como ficam resilientes! Como “crescem” e se agigantam! Mas, afinal, o que é a coragem?

Recorrendo ao dicionário Michaelis buscando esse verbete encontramos significados que poderiam perfeitamente descrever um disléxico que acredita, com todas as suas forças, em sua coragem:


1 Força ou energia moral diante do perigo. 2 Sentimento de segurança para enfrentar situações de dificuldade moral. 3 Atributo de quem tem determinação para realizar atividades que exigem firmeza. 4 Força física para suportar esforço que demanda tempo prolongado. 5 PEJ ousadia, acepção 1.


E quem pode ajudar o disléxico a encontrar, nessa busca interna, essa coragem que será provavelmente, um dos segredos para alcançar seus objetivos? São vários os colaboradores! Os terapeutas – fonoaudiólogos, psicólogos, psicopedagogos, terapeutas ocupacionais – serão aqueles que identificarão as habilidades em déficit, ou seja, as habilidades que estão afetadas devido ao transtorno e estimularão seu paciente buscando sempre a intervenção mais adequada para o seu desenvolvimento. Mas para que a intervenção alcance bons resultados, além do profissionalismo e o conhecimento profundo sobre o transtorno, há um ingrediente a mais. Segundo Capovilla, o disléxico precisa “sentir que o profissional está ao seu lado para ajudá-lo e não para cobrar dele o desempenho.” Com esse profissional ele sabe “ que não precisa ter medo de errar de novo e de decepcionar as pessoas, e que ele está livre para receber ajuda”.

Outro ator que divide o protagonismo com os terapeutas é a família. Ela será o apoio incondicional do filho. É ela quem vai ajudá-lo através do diálogo e da cumplicidade, na compreensão de que seus esforços não são em vão e que cada uma de suas pequenas vitórias diárias são importantes e fundamentais! Mas como os pais podem fazer isso? Valorizando cada avanço, por menor que pareça ser, uma vez que demandou do filho esforço e dedicação muitas vezes maiores até do que de seus amigos de sala; conversar abertamente sobre as dificuldades que apresenta e buscar profissionais que possam o ajudar em questões que fogem do controle por demandarem apoio mais específico.


E para finalizar essa equipe multidisciplinar, temos o professor! Qual a contribuição desse profissional para que o disléxico "exercite" essa coragem interior no dia a dia escolar? O professor precisa compreender que o resultado abaixo do que era esperado que muitas vezes o disléxico apresenta não é “uma falha de caráter, mas sim uma simples e dura dificuldade específica que requer não condenação e humilhação, mas compaixão serena e genuína, e ajuda eficaz.” ( Capovilla, 2020) Este profissional deve conhecer seu aluno na sua totalidade, com suas dificuldades e potencialidades e buscar as melhores estratégias de aprendizagem respeitando o seu ritmo, o seu tempo, o seu estilo de aprendizagem e, gradativamente, ir aumentando os desafios. Há estratégias muito eficazes para os disléxicos que já foram cientificamente comprovadas e o professor deve procurar se informar sobre esses recursos e identificar qual deles vai de encontro com o perfil de seu aluno. Ele também deve estar atento aos casos de bullying em sala de aula com seu aluno disléxico ( a propósito, com qualquer aluno). Quando o professor ouve em sala de aula um colega xingar ou menosprezar o outro, deve prontamente deixar de lado o conteúdo programático e agir imediatamente. Dizer “burro” a alguém, por exemplo, é um tipo de situação de violência verbal e precisa ser mediada. Para a criança que foi rotulada de “burra” a dor é muito maior, principalmente se ela mesma se perceber como tal.

Dessa forma, para despertar essa coragem interior que faz o aprendente com dislexia prosseguir, além da rede de apoio que foi mencionada, ninguém mais do que ele próprio pode fazer a diferença nessa missão. Queria finalizar minhas reflexões com a fala da psicóloga Mariela Gonzalez, que também apresenta a dislexia e que conseguiu na juventude, com o apoio de seus pais, de seus professores e de seus terapeutas, encontrar a sua coragem interior e, assim, não estabelecer limites para seus objetivos de vida.


“Eu gostaria muito que vocês, disléxicos como eu, soubessem que:

  • podemos demorar mais para ler, escrever, estudar, mas somos inteligentes e podemos conquistar qualquer coisa com trabalho duro;

  • é difícil manejar o transtorno no começo, mas depois de aprender as estratégias que funcionam para cada um de nós, fica mais fácil de lidar;

  • sempre é bom ter apoio de um profissional qualificado, para ajudar a desenvolver essas estratégias; para aprender quando e como pedir ajuda dos professores;

  • somos todos diferentes uns dos outros! Eu adoro ser disléxica porque me deu a vantagem de desenvolver outras qualidades e ver as coisas por uma perspectiva menos comum;

  • principalmente, se a gente tem um sonho, não podemos deixar nada nos impedir de conquistá-lo, NEM NÓS MESMOS!!!”


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